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“Deus quis se tornar mundano”, afirma teólogo em artigo sobre a relação da igreja com a sociedade. Leia na íntegra

“Deus quis se tornar mundano”, afirma teólogo em artigo sobre a relação da igreja com a sociedade. Leia na íntegra

O teólogo e professor universitário Sostenes Lima publicou artigo em seu blog sobre a divisão de bom e mau que diversas igrejas evangélicas fazem com relação à cultura cristã e o restante da sociedade.

Em seu artigo, Sostenes afirma que para muitos evangélicos “existem dois universos sociais dentro dos quais nossa vida transcorre: a igreja e o mundo. Me ensinaram que ser crente significava viver dentro de uma subcultura, a igreja, tendo o mínimo de contato possível com o espaço lá de fora, o mundo”.

Sostenes porém, aponta essa separação como algo negativo, que segundo suas palavras, “demoniza o mundo” em que estamos inseridos: “Há aí muita ignorância, moralismo, hipocrisia, alienação e dominação. É óbvio que, por trás de um discurso tão sectário como esse, há muita arrogância moral e farisaísmo. Também não tenho dúvidas de que há aí uma gama de interesses espúrios, bem escondidos nos porões institucionais, que favorecem certas pessoas e certas instituições”.

O argumento usado pelo teólogo Lima é baseado na biografia de Jesus e seu ministério: “Por que o cristão deve renegar o mundo se Deus fez exatamente o contrário? Por que o cristão deve se enclausurar na igreja se Jesus desenvolveu toda sua prática ministerial fora da organização religiosa de sua época? Na verdade, Jesus não apenas se desligou da instituição religiosa de sua época; ele se opôs a ela radicalmente. Jesus colocou em ruína todas as bases que davam sustentação ao discurso exclusivista e moralista da elite religiosa de seu tempo”.

Ele enfatiza que a quebra de paradigmas promovida pelo ministério de Cristo foi totalmente fora da cultura religiosa: “Jesus não renegou o mundo. Ele teve uma vida intensamente mundana”, e emenda: “Deus, em Jesus, se propôs a uma jornada de mundanização. Jesus entra no mundo e se mistura com ele. A encarnação não é uma negação do mundo, mas uma entrada radical e definitiva de Deus em nossa história, em esfera de existência”.

Confira abaixo a íntegra do artigo “Deus quis se tornar mundano”, de Sostenes Lima:

Vivi uma parte da minha infância numa casa que dividia espaço com a igreja. O terreiro (uma espécie de calçada de terra batida) se estendia varanda a fora dando para a porta do fundo do templo. Eu experimentava a vida de dentro e para dentro da igreja. Mas a vida naquele claustro não era plena; faltava ali uma série de coisas fundamentais. Lá não havia escola, não havia parquinho, não havia mercado, não havia casa e nem trabalho para todos etc. A igreja não conseguia oferecer tudo de que as pessoas precisavam. Logo percebi que não era possível permanecer o tempo todo dentro da redoma da igreja. O que fazer então? Foi aí que me ensinaram que existem dois universos sociais dentro dos quais nossa vida transcorre: a igreja e o mundo. Me ensinaram que ser crente significava viver dentro de uma subcultura, a igreja, tendo o mínimo de contato possível com o espaço lá de fora, o mundo.

Diziam-me que a igreja era um lugar social puro, formado por pessoas boas e íntegras. Ouvi algumas vezes alguém dizer, em pregação, coisas como: “Se alguém está precisando de um funcionário, deve contratar um irmão; é mais seguro. As pessoas da igreja são honestas, competentes e responsáveis. Por que se arriscar contratando alguém do mundo?” Ou algo assim: “Se você está vendendo para um crente pode confiar. As pessoas da igreja não dão calote; elas honram sua palavra e seus negócios”.

Diziam-me que a igreja tinha os padrões morais mais elevados da sociedade. A igreja não apenas congregava pessoas limpas; ela tinha a mais alta fórmula de assepsia moral. A igreja tinha um código de retidão que, quando cumprido à risca, tornava o crente livre de todas as mazelas morais que degradam a vida humana. O crente, uma vez lavado e remido, era uma pessoa santa.

Diziam-me também que a igreja tinha o melhor padrão de arte do mundo. Embora cultivasse apenas uma arte, a música, a igreja detinha um padrão estético capaz de suprir todas as demandas por arte. Ouvia em pregações: “Não ouça música do mundo. Elas não prestam, não edificam em nada. Ouça apenas as músicas da igreja. Essas, sim, são belas e edificantes”. Estranhamente, não me lembro de ouvir qualquer repreensão à leitura de obras literárias. Tenho minhas hipóteses sobre o motivo por que não havia censura à literatura, mas isso não importa neste momento.

As pessoas da igreja concebiam o mundo como o lado de fora da vida; um espaço social sujo, corrompido, cheio de pessoas más e pecadoras. Ouvi por diversas vezes frases como: “O mundo só tem coisas que não prestam. Ele é sedutor, cheio de atrativos, mas nada nele tem valor”. Também ouvia as pessoas da igreja advertindo sobre os perigos de se associar com as pessoas do mundo. Os pregadores diziam: “Cuidado com as pessoas do mundo. Elas são pecadoras e vão influenciar você, conduzindo-o para o fundo do poço. Não seja amigo de pessoas do mundo. Livrem-se das más companhias. Lembrem-se do ditado que diz: ‘me diga com quem você anda que direi que você é’. Andar com uma pessoa mundana pode levar você a se tornar mundano também”.

Vivi minha infância e adolescência exposto a esse discurso. Havia claramente uma divisão entre o que era de boa fama (coisas inerentes à igreja) e o que era degenerado (coisas inerentes ao mundo). Esse tipo de discurso, embora tenha perdido força, ainda continua ativo em muitos recantos religiosos. Ainda há muitas pregações que conclamam as pessoas a renegarem o mundo.

Não vou discutir o que está na base dessa cosmovisão que enaltece a igreja e demoniza o mundo. Sei que há aí muita ignorância, moralismo, hipocrisia, alienação e dominação. É óbvio que, por trás de um discurso tão sectário como esse, há muita arrogância moral e farisaísmo. Também não tenho dúvidas de que há aí uma gama de interesses espúrios, bem escondidos nos porões institucionais, que favorecem certas pessoas e certas instituições. Mas isso não me interessa no momento.

A questão a que me proponho é outra; está relacionada às seguintes indagações: Por que o cristão deve renegar o mundo se Deus fez exatamente o contrário? Por que o cristão deve se enclausurar na igreja se Jesus desenvolveu toda sua prática ministerial fora da organização religiosa de sua época? Na verdade, Jesus não apenas se desligou da instituição religiosa de sua época; ele se opôs a ela radicalmente. Jesus colocou em ruína todas as bases que davam sustentação ao discurso exclusivista e moralista da elite religiosa de seu tempo.

Jesus não renegou o mundo. Ele teve uma vida intensamente mundana. Viveu a infância e juventude numa pequena cidade da Galileia. Lá, possivelmente, adquiriu uma profissão e trabalhou com o pai. Foi a festas. Comeu e bebeu muito. Chorou e riu. Tornou-se um profeta itinerante imerso no mundo, dialogando com as crises mundanas que assolavam as pessoas. Circulou por espaços públicos e privados sem querer torná-los sagrados.

Não encontramos, na atividade e pregação de Jesus, qualquer base para uma cisão entre igreja e mundo. Não há nada mais contraditório do que exigir que alguém seja um cristão fora do mundo, como se isso fosse realmente possível.

Deus, em Jesus, se propôs a uma jornada de mundanização. Jesus entra no mundo e se mistura com ele. A encarnação não é uma negação do mundo, mas uma entrada radical e definitiva de Deus em nossa história, em esfera de existência. A encarnação é uma evidência de que Deus se interessou pelo mundo, de que Deus quis se tornar mundano. Logo, qualquer pregação que demonize o mundo, que o renegue, parece contradizer o propósito da atividade de Jesus. Deus quis interagir com o mundo. Sejamos imitadores de Deus. Tornemo-nos cristãos mais afeitos ao mundo. Sejamos mundanos.

Fonte: Gospel+

 
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Publicado por em 26/04/2012 em POIMENIA

 

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O caminho da fraqueza

“A fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.

I Cor 1.25

O poder é fascinante. Ele está no centro do projeto de vida da maior parte de nós. É difícil encontrar alguém que, não tendo poder, não o deseja ou que, tendo poder, o renuncia espontânea e desprendidamente. É muito difícil encontrarmos alguém que se desiludiu com próprio poder, a não ser quando se sentiu ameaçado. Por outro lado, é muito comum encontrarmos pessoas que se decepcionaram e se desiludiram com o poder alheio. E por que isso acontece? Porque o poder alheio raramente rende o benefício esperado. Só o autopoder nos satisfaz a contento.

A posse do poder expande nossa capacidade de controle sobre as pessoas e sobre as coisas. Por isso ele é tão desejado e tão buscado. Uma vez que adquirimos controle sobre pessoas e coisas, o caminho para autossatisfação fica bastante desembaraçado. A lógica é a seguinte: se o poder está com o outro, a autogratificação é amplamente dificultada e restringida, mas se ele estiver conosco, sempre há concessões. Daí o motivo por que o poder alheio quase sempre nos incomoda, nos decepciona e o nosso nos apraz. A questão parece bem simples; é só nos perguntarmos: quem está no centro da pessoa que detém o poder? Portanto se o poder não está comigo, certamente não sou o seu principal beneficiário. Por outro lado, se poder está comigo, certamente o outro também não é o seu principal beneficiário.

Não tenho dúvida de que uma das maiores ilusões e ciladas a que o ser humano está sujeito é acreditar no altruísmo do poder. O poder não é altruísta, não busca o bem do outro. Mais do que isso: o poder corrói o altruísmo. Não duvido da pureza de algumas pessoas quando dizem que precisam ascender ao poder para que tenham condições de expandir o bem que fazem a outras pessoas. Também não duvido da integridade de algumas pessoas que estabelecem um plano de conquista do poder como meio para expandir seu projeto de solidariedade e de autoentrega à causa do próximo. Enquanto o poder é apenas desejado, seu potencial de maldade é limitado. Acho até que a maior parte das pessoas é realmente íntegra enquanto deseja o poder. O grande problema é quando o poder se estabelece e finca raízes. A primeira coisa que ele faz é apontar para quem está no centro, e, ao fazer isso, de imediato apazigua, arrefece o ideal de altruísmo. O próximo passo é fazer com que o eu se esqueça do outro, o que não demora muito a acontecer.

Honestamente, eu também desejo o poder, mas preciso fugir tanto do desejo como do direito e da posse do poder e seguir a trilha da fraqueza. Sou constantemente advertido pelo evangelho a respeito dos males que o poder carrega. Preciso sempre suspeitar do poder, mesmo quando ele me oferece condições e recursos extraordinários para o exercício da solidariedade. Recusar o poder quando ele bate a porta é uma das disciplinas espirituais mais complexas e custosas, porque significa dizer não ao objeto que está na base de quase todos os nossos desejos. Contudo, devemos fazer isso, mesmo com grande dor. O evangelho nos diz para seguir o caminho daquele que, tendo todo o poder, abandonou-o para viver uma vida de fraqueza. E que fraqueza! Afinal, “a fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens”.

Sostenes Lima

Fonte: SOSTENES LIMA

 
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Publicado por em 28/02/2012 em POIMENIA

 

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