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O discipulado e a questão do “senhorio”

Por Marcondes Soares:

Será que o discipulado é mais do que prestação de contas, submissão, confissão de pecados, orientação, etc.? Por que o movimento de discipulado, que já deu um grande passo adiante desse modelo de classe bíblica dominical, sempre cai em abuso de autoridade e legalismo? O que falta nesse conceito de discipulado argentino que o movimento de células, comunidades e muitas igrejas domésticas adotaram?

Afinal, o que é discipulado? Este é um ponto bem especifico que vale a pena focar. Discipulado, no movimento de discipulado argentino, é estar sob o “senhorio” de Cristo. Entretanto, a compreensão do que é estar sob o “senhorio” está, muitas vezes, atrelada a regras legalista de usos e costumes tais como não beber, não fumar, não ouvir música secular, etc. Os discipuladores estão atentos à vida particular de seus discípulos nestes pontos, o que resulta em um controle rígido – às vezes sobre coisas que realmente são questões bíblicas – mas sem a devida graça para cuidar destes problemas.

Eu tinha uma amiga na faculdade ligada ao único movimento de igrejas domésticas aqui no Recife que bebe muito de Jorge Himitian. Ela se orgulhava do fato que a sua igreja não admitia pessoas que não estavam submissas ao “senhorio” de Cristo. Um exemplo disso era indivíduos que não podiam perdoar outra pessoa. De tanto o discipulador insistir que se ela não queria perdoar, não estava sob o “senhorio” de Cristo, logo, tão pessoa não estaria salva – visto que a salvação está totalmente condicionada à submissão a Cristo.

O teólogo Reformado Alister McGrath já havia chamado a atenção para um problema no livro de John McArthur – O Evangelho Segundo Jesus – onde há uma aparente confusão entre a proclamação da lei para convicção de pecados com a imposição de condições para a salvação, anulando a graça de Deus. Segundo McGrath, a “lordship salvation” (salvação pelo senhorio) simplesmente enfatiza a necessidade de provarmos que somos cristãos por meio de um teste empírico de discipulado, mas nos deixa desamparados quando descobrimos que não somos capazes, levando em conta o pecado.1

Nesta obra, McGrath também critica a “livre graça” – uma forma de antinomianismo que exalta as virtudes da graça, mas não reconhece seu caráter de transformação e mudança na vida do discípulo. Entretanto, a solução que o movimento de discipulado oferece para a “livre graça” é simplesmente trágica em termos pastorais.

É difícil crer que os líderes mais sinceros do movimento de discipulado não enxerguem o problema do legalismo que vem embutido no conceito de “senhorio” de Cristo. Trata-se de um ciclo vicioso que se reproduz em outros movimentos que tentam aplicar princípios de submissão mútua sem relacionamentos profundos. Ao observar a história mais recente da igreja, vemos o conflito entre Juan Carlos Ortiz da Argentina e outros integrantes do movimento de discipulado daquele país por causa de posturas legalistas. Anos depois, o mesmo ocorreu no movimento americano de discipulado, liderado por Derek Prince.

Derek Prince também tinha influencia direta e pessoal sobre César Castellanos da Colômbia, o que pode ser comprovado pelas contínuas referências a Prince nas obras de Castellanos. No livro “Liderança de Sucesso Através dos 12”, no endosso da contra-capa, Derek Prince diz: “Vi em primeira mão a obra que César Castellanos tem levantado em Bogotá. É uma inspiração e um desafio para todos os servos de Cristo ao redor do mundo”. Infelizmente, tanto o movimento de discipulado americano quanto o G12 implodiram por questões de controle abusivo sobre a vida de seus membros.

JOCUM, Opus Dei e outras comunidades independentes, sejam católicas ou evangélicas, somam-se à lista de sucessivos escândalos por abusos. Diante disso, podemos fingir que estes são casos isolados e não um problema sistêmico no movimento de discipulado?

Marcondes Soares vive em Recife-PE. É professor de Sociologia graduado pela Universidade Federal de Pernambuco.

BIBLIOGRAFIA

[1] Cristo, o Senhor – a Reforma e o Senhorio na Salvação, editado por Michael Horton, ed. Cultura Cristã.

 
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Publicado por em 06/03/2012 em POIMENIA

 

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De Caio Fábio para Bráulia Ribeiro

Querida Bráulia, graça e paz!

Li o texto Alexandre (Ultimato, edição setembro/outubro, 2009) e me comovi profundamente com a dor de vocês, tão simples e verdadeiramente expressa pela Bráulia.

Você e eu já tivemos todas as chances de nos tornarmos mais próximos em razão de amigos comuns e de muitas identificações simples e práticas no Evangelho. Além disso, muitos já fizeram tudo para que isto acontecesse, mas as circunstâncias não permitiram; e a culpa é minha, não sua.

Não posso dizer que leio o que você escreve, que pesquiso, que estou informado sobre você em detalhes…

Sabia e soube de você mais pelo George Foster, pelo Pedro do Borel (hoje no Egito), pelo André Fernandes e pelo Tiago da Jocum em Brasília, do que por quaisquer outros meios. E todos me dão o mesmo testemunho; sim, falam-me da carta escrita com amor de Deus em seu coração para com todos os que passam em seu caminho.

Entretanto, amiga no Senhor, somente Jesus nunca foi levita e sacerdote na estrada, sendo sempre o samaritano.

Sim, além dele, todos os demais somos samaritanos de vez em quando, e ficamos felizes com isso. Embora em nossa ignorância e distração não registremos a quantidade enorme de vezes em que passamos de largo fazendo da agenda da estrada […] o caminho de nossa pressa, e não fazendo a estrada submeter-se ao caminho interior, ao invés de seguir o roteiro da estrada […], todos os dias vejo-me escolhendo apressadamente as agendas da estrada enquanto negligencio a agenda do caminho.

O levita e o sacerdote seguiram a estrada e seu “tempo”. O samaritano seguiu o seu caminho.

A estrada, todavia, é apressada, diferentemente do caminho, que só segue quando tem a permissão da vida para passar. Graças a Deus somos perdoados todos os dias pelas escolhas da estrada contra as veredas calmas do caminho!

Entretanto, o que desejo de coração dizer a você, publicamente, visto que seu texto é público, é que nem você e nem ele têm esse poder todo! Sim, vocês não têm o poder de saber nada além do que se tornou história com as configurações de “história” […] de passado, portanto.

Na noite que meu filho Lukas morreu atropelado saindo de uma festa com os irmãos, antes de ir ele me ligou e me disse que estava meio cansado, a fim de dormir, e que se fosse seria apenas pelos irmãos e porque lá haveria uma moçada da Igreja Presbiteriana Betânia que ele não via há muito tempo.

“Vá meu filho! Vai ser legal! A Bruna está indo só por sua causa. E ela já saiu!”, foi o que eu disse; e ele foi.

O interessante em tudo isto é que por uma certeza mais profunda do que a morte dele naquela noite, eu sabia que não fora a “minha força” que o pusera no chão daquela estrada fria de Itaipú. Havia um caminho naquela estrada que estava para além de mim. E certamente muito para além da própria estrada.

Conheço a sensação de não atender a insistências que acabam de modo catastrófico. No curso da vida já deixei para visitar no dia seguinte muita gente que morreu durante a noite; já adiei idas que se confirmaram atrasadas depois dos fatos; já passei e soube que o “deixado” não resistiu; já sim, já muita coisa…

Sei também que o nível de pessoalidade do conhecimento do moço que se autovitimou aprofunda qualquer dor. Aumenta toda sensação de culpa e exacerba as perspectivas de responsabilidade e de omissão. Tais fatos, todavia, servem a nós de muitos modos quando o coração é como o de vocês.

A gente aprende que todos estão a um passo de qualquer coisa.

A gente aprende que por vezes nem todos os esforços do mundo mudam determinadas realidades.

A gente aprende que muita dor culposa que se sente decorre da culpa da bondade cristã salvadora, a qual assume para si poderes de salvação que não estão em nossas mãos.

A gente aprende a discernir quais são as coisas que podem esperar ante um desespero e quais não podem.

A gente aprende que nem todo desespero tem que parar o nosso caminho também.

A gente aprende, sutilmente, o que é agenda da estrada e o que é agenda do caminho.

Mas ninguém aprende isso sem se sentir levita e sacerdote de vez em quando, posto que nossos atos samaritanos são emblemáticos, mas nossas omissões levíticas e sacerdotais são a regra na agitação de nossas inúmeras distrações.

O pecado é adotar o caminho do levita e do sacerdote como modo de se desviar de gente na estrada. Ora, esse jamais foi ou será o caso de vocês, graças a Deus.

Entretanto, o mesmo samaritano um dia deve ter tido seu dia de levita. Ou, então, ele seria “Ele”. E não era…

Assim, minha oração é uma só nesse particular: “Senhor, faz de mim o samaritano possível no dia de hoje em minha existência! E salva-me dessa horrível tendência natural que tenho a, na estrada, preferir a omissão do caminho do levita e do sacerdote!”.

Sim, pois o mais devotado dos samaritanos tem seus momentos de pressa de levita e de sacerdote. E mais: isto é assim para que todo ato samaritano de nossa vida seja pura glória e graça de Deus sobre nós; e não fruto de nossa certeza de que em nossa existência não existem omissões.

Louvo a verdade de sua dor sincera e exposta de modo tão simples e franco.

Recomendo, no entanto, que essa dor se torne louvor àquele que amava o Alexandre, e que o ama e que o tem em seu seio, pois quem danou o Alexandre apenas por que a dor de sua perturbação mental o levou a um desatino?

O Alexandre, sim, o do salmo, o que buscava consolação onde há consolação, era apenas um jovem em estado de perturbação adquirida pelo vício. Não era filho do inferno.

Nenhum diabo teve o poder de tirar o Alexandre das mãos do Senhor Jesus! Assim como nenhum diabo tentará (e vencerá) vocês com a culpa de que poderiam ser os salvadores do Alexandre e não o foram.

Manos amados, também isto está consumado! Recebam meu amor e meu carinho sincero e cheio de orações.

Nele, em quem nenhum de nós tem o poder de salvar, mas apenas o de cooperar com o Salvador, o qual salva com ou sem nós,

Caio

• Caio Fábio D´Araújo Filho é psicanalista clínico, escritor e pregador do Evangelho da Graça de Jesus. caiofabio.com

Fonte: ULTIMATO

 
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Publicado por em 16/10/2009 em POIMENIA

 

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