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O estudo traz uma releitura da vida

“Dos 5 aos 14 anos, morei com minha avó Julia, em Mecejana, no Ceará. Eu morava numa casinha de palha, a 10 quilômetros da casa do meu pai. Ficava numa capoeira. Minha avó era uma pessoa muito inteligente, capaz de decorar um livro inteiro de cordel apenas de ouvir a história umas duas vezes. Como ela não sabia ler, meu pai lia para ela, e ela me contava as histórias. Ou as cantava em forma de cantoria, como os repentistas. Foi com ela que aprendi os rudimentos do cristianismo. Ela tinha um catecismo feito de papel-cuchê, com umas ilustrações belíssimas da Capela Sistina, que mostrava desde a Criação até o Apocalipse, o fim do mundo. O livro não tinha escrita, só ilustração. Era feito para analfabetos. Minha avó dizia que no Ceará havia padres, freiras e tudo isso. No meu imaginário de criança, ao ouvir tudo isso, eu comecei a dizer que, quando eu crescesse, seria freira. Todas as vezes que eu dizia isso, ela me aconselhava a estudar. Dizia que freira não podia ser analfabeta. E cresci com esse conselho. Quando fiquei doente, resolvi cuidar da minha saúde e ser freira. Fui para um convento, onde fiquei dois anos e oito meses. Foi assim que comecei a estudar. Para ser freira, eu tinha de aprender a ler. Eu tinha 16 anos e meio quando fui para Rio Branco para ser freira. E continuo tentando me curar do analfabetismo até hoje. Analfabeto é também quem não consegue fazer uma leitura em relação aos tempos que está vivendo, quem não consegue ler os valores que se quer reforçar ou outros que a gente precisa mudar. Enfim, a alfabetização é um processo contínuo; é dar outra significação à vida.”

Marina Silva

fonte: Época via: PAVABLOG

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Publicado por em 28/10/2009 em POIMENIA

 

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Os demônios da Igreja Universal

Daniel Lopes

Onde a minha rua começa, lá na avenida, há um templo da Igreja Universal do Reino de Deus. Foi aberto não faz muito. No local funcionava um lava-rápido, antes da igreja de Edir Macedo adquirir a área, erguer quatro imensos muros, um teto de metal em forma de A e buracos nas laterais para auxiliar os ventiladores no arejamento. Na verdade, não fosse o enorme letreiro da IURD na frente, você poderia tomar o estabelecimento como um grande depósito – de material de construção, por exemplo. Do outro lado das duas faixas da avenida, há uma igreja católica. Histórica. De fato, o meu bairro e os vizinhos nasceram em parte em função das atividades dessa paróquia.

Mais para dentro da rua há três bares, com mesas de sinuca e muitos cachorros vira-latas perambulando ao redor, à espera de algum resto de espetinho atirado ao chão, de preferência ainda com alguma carne. Quando, nos dias de meio de semana à noite, os fiéis da Universal começam a gritar para espantar seus males, espantam junto, talvez antes, os cachorros, que latem muito e alto, enervando os bêbados. Os cachorros também latem quando, nas noites de sábado, há briga e quebradeira de garrafas em algum dos bares e nos dias em que há procissão com foguetes em homenagem ao santo católico. Em sua ignorância, os cachorros não sabem diferenciar uma bagunça da outra.

O fato da Igreja Universal ter aberto uma franquia nessa avenida nos últimos anos com crescente movimento de carros e pedestres, desta franquia estar situada bem próxima a uma igreja católica e, por fim, ter a aparência de depósito que tem, está bem explicado em A Igreja Universal e seus demônios: Um estudo etnográfico, pesquisa de mestrado de Ronaldo de Almeira que a editora Terceiro Nome, em parceria com a FAPESP, lança agora em sua coleção Antropologia Hoje. Nos seus primórdios ocupando o espaço que cinemas e teatros iam deixando no rastro de falências, a Universal enfim passou, na segunda metade dos anos 90, a construir seus chamativos templos, como a Catedral do Brás, inaugurada em 2000 em São Paulo. Sem esquecer os templos-depósitos em vários locais do país, invariavelmente próximos a avenidas, pontos de ônibus e outras áreas com grande fluxo de pessoas (trabalhadores humildes, se bem que já há algum tempo a igreja vem partindo para a conquista de fatias das classes média e alta). As localizações próximas a estabelecimentos da igreja Católica, com sua “velha” teologia tão distante dos problemas do homem comum, também estão longe de serem obras do acaso. Nos últimos tempos, aquele que Ronaldo de Almeida considera o tripé que sustenta a Igreja Universal – cura, exorcismo e prosperidade financeira – tem se provado uma isca infalível para milhões de cristãos Brasil afora. Segundo o bispo Macedo, sua igreja é um “pronto-socorro espiritual”.

Roberto Augusto, Edir Macedo e Romildo Soares foram os três cavalheiros que fundaram a IURD. Todos pertenciam, antes, à Igreja Nova Vida, de onde abriram uma dissidência. Edir e Romildo, cunhados, já haviam tentado êxito com certo Salão da Fé (também conhecido, nos informa Ronaldo de Almeira, como Cruzada do Caminho Eterno). No início da década de 80, Romildo (o R. R. Soares) desgostou Edir e acabou se desligando da Igreja Universal do Reino de Deus, fundando a Igreja Internacional da Graça de Deus. No final da década de 80, foi a vez de Roberto Augusto voltar para a Nova Vida. Esse processo consolidou a hegemonia de Edir Macedo, que, ainda no final da década de 80, mudou a sede nacional de sua igreja do Rio de Janeiro (em cujas favelas ela havia nascido) para São Paulo. Baseada em um centralismo financeiro que, ironicamente, lembra mais o Vaticano que outras denominações protestantes e mesmo neopentecostais, a expansão da igreja ia começar pra valer.

*

Entre as curas prometidas pelos pastores da Universal, encontram-se as dos mais variados tipos de câncer. Se você achar pouco, saiba que um folheto da instituição analisado por Ronaldo de Almeida trazia o depoimento de uma fiel que dizia se ter curado da Aids só com o poder da fé. Enquanto os crentes da Universal não duvidam que Aids se pega, entre outros meios, através de relação sexual, esta relação, por sua vez, tenha sido voluntária ou por ofício (prostituição), só pode ter sido obra do demônio.

Obviamente, você não precisa ter câncer ou Aids para buscar cura no templo mais próximo; seria restringir demais o raio de ação.

Para a Igreja Universal não existe meio-termo: o mundo está dividido entre pessoas “libertas” e “não-libertas”, sendo que nestas há a constante atuação do diabo. É ele o causador de todos os males. Uma pessoa que sofre de alguma doença, por exemplo, está possivelmente sendo atingida por algo de outra ordem, um mal diferente daquele tratado pela medicina ou qualquer conhecimento humano – a saber, o diabo (…)

Com a finalidade de diagnosticar a possessão, a Igreja Universal elencou os sintomas mais frequentes que denunciam algum tipo de possessão demoníaca. São eles: insônia, medo, nervosismo, constantes dores de cabeça, desmaios frequentes, visão de vultos, audição de vozes estranhas, vontade de suicídio, vícios, perturbações, dores não diagnosticadas pela medicina e depressão. [págs. 81/2]

É verdade, as informações dessa citação dificilmente ainda serão novidades para alguém, mas o grande mérito de Ronaldo de Almeida está em fazer ligações e tirar conclusões que ainda passam batidas a muita gente (passavam a este resenhista, por exemplo). Ademais, às vezes o livro é muito útil ao desfazer mitos. Uma amostra, e ainda sobre doenças-possessões-curas:

(…) é no mínimo insuficiente o argumento de que as pessoas procuram a igreja simplesmente por não terem à sua disposição serviços de saúde oferecidos pelo Estado. A Igreja Universal promete mais do que o Estado e a medicina podem proporcionar. A cura milagrosa da aids, a cura do câncer sem sofrimento e a cura de outros males são respostas oferecidas à aflição do fiel diante da dor e da morte. Tudo isso é alardeado de forma espetacular nos jornais, templos, rádios e televisão. [p. 131]

Devido a própria natureza do livro, Ronaldo de Almeida não vai além, não passa da análise para a emissão de juízos. Nada impede, no entanto, que nós leitores paremos para pensar que esse tipo de desinformação em massa praticado pela IURD e inúmeras outras denominações é diariamente varrida para debaixo do tapete no discurso dos grupos “democráticos” e “pluralistas”. Tudo em nome da defesa da liberdade de crença religiosa. Nossos respeitáveis veículos de jornalismo raramente lembram o sofrimento causado pela desinformação travestida de salvação – seria descortesia. É impossível levantar a questão de crianças que sofrem por seus pais não permitirem transplantes ou transfusão sanguínea sem passar por “fundamentalista ateu”. Talvez, se seus pais objetassem baseados na crença de que em 2012 o mundo será atingido por um meteoro e apenas os, digamos, “puros de sangue”, vivos ou mortos, serão salvos, talvez então o Estado pudesse interceder para melhorar sua condição, e de quebra mandar os pais para alguma clínica de repouso. Mas, para infelicidade dos filhos, a crença de seus pais é de que a cura como a doença são mandatos divinos, nos quais não se pode interferir; assim, seu sofrimento geralmente é um não-assunto.

*

“ (…) a Igreja Universal”, escreve Ronaldo de Almeida, “constituiu-se em relação ao universo simbólico de seus adversários, ficando parecida com as religiões combatidas”. Estas são as religiões afro-brasileiras – que atraem grande número de pessoas de baixa renda, exatamente a fatia do mercado cobiçado pela IURD.

Como vimos, o exorcismo é um dos suportes da Igreja Universal. Uma obsessão. Ela “apresenta acentuada ênfase, mesmo para uma igreja pentecostal, no sobrenatural e nos malefícios resultantes da vivência equivocada em outros tipos de religiosidade, em particular nas religiões afro-brasileiras”. Nunca perdeu tempo tentando constituir uma doutrina religiosa – que é expressamente condenada por Edir Macedo em seu livro Libertação da teologia.

Ronaldo frequentou diversos cultos em várias cidades e notou um padrão no exorcismo: sempre que o pastor pergunta ao endemoniado “Qual é o teu nome?”, “tem sempre como respostas as entidades das religiões afro-brasileiras, em particular da Umbanda”. Se nos terreiros a possessão é o ponto alto da cerimônia, nos templos a expulsão ocupa lugar de destaque. Não a mera expulsão, entretanto. Antes de deixar o corpo do possuído, as entidades sofrem uma longa entrevista e são humilhadas pelo pastor-exorcista, que, supunha-se, deveria ter mais com o que gastar seu tempo.

As diretrizes foram traçadas, mais uma vez, por Edir Macedo, desta feita em Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios?

Claro que nossos ilustres colunistas não se meterão a dar uma opinião sobre essa infâmia. Desde que um pastor maluco não se meta a chutar uma imagem de Nossa Senhora, tudo bem. Eu não morro de amores por nenhuma religião, incluídas as afro-brasileiras (como diz um amigo meu, espere só até os umbandistas começarem a comprar rádios e tevês), mas não consigo evitar as perguntas: a “liberdade religiosa” exime até a detração de crenças? Uma eventual Guerra Santa – a liberdade religiosa gozada ao máximo? – estaria livre da interferência do poder público?

Mas, retornando, por que Ronaldo de Almeida julgou que a IURD, ao atacar os afro-brasileiros, ficou-lhes parecida? Ora, talvez tenha sido um processo inevitável. Três passagens de A Igreja Universal e seus demônios listam algumas semelhanças:

– Segundo um renomado pastor explica na tevê (e Ronaldo viu, gravou e reviu um sem número de programas de tevê veiculados pela Universal, para detectar melhor seus padrões), o “óleo ungido” que é passado nos pés, mãos e cabeças dos participantes das “sessões de descarrego” é para o “fechamento do corpo”, expressão de uso corrente em terreiros de Umbanda e Candomblé. [p. 70]

– Durante a entrevista com a entidade de posse do corpo: “Da mesma maneira como ocorre nos terreiros – onde há um estado de semiconsciência e é a entidade que fala –, no tempo o endemoninhado perde a consciência, dando voz ao demônios.” [p. 88]

– “A ideia de imanência do sagrado não é tão estranha ao pentecostalismo. (…) Mas a Igreja Universal vai além, pois, se o pentecostalismo reintroduziu a imanência somente nos corpos dos fiéis, a Universal estende esse fenômeno aos objetos [óleos, sais], tal qual o fazem as religiões mágicas, como as afro-brasileiras. Dessa forma, como na Umbanda, a Igreja Universal pode agora utilizar-se de qualquer coisa para a transmissão de suas bençãos ou contrafeitiços.” [p. 108]

*

Além de um exemplar trabalho de campo antropológico (e jornalístico! – vocês precisam ler as descrições de cultos de exorcismo, especificamente páginas 74 a 98), A Igreja Universal e seus demônios é, principalmente em seus primeiros capítulos, um ótimo trabalho histórico. Sim, tudo em apenas 140 páginas. (E, em tempo: a bibliografia consultada e citada por Ronaldo de Almeida vale ouro para quem quer aprofundar as leituras sobre o protestantismo, pentecostalismo e neopentecostalismo no Brasil. Pena que muitas obras sejam difíceis de achar mesmo em sebos.)

No capítulo “Expansão Pentecostal”, Ronaldo explica que o pentecostalismo no país teve início com a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil, em princípios do século 20. Os fundadores dessas duas denominações saíram, respectivamente, da Igreja Presbiteriana e da Igreja Batista, embora o autor esclareça que “foi no catolicismo popular que os pentecostais realizaram inicialmente com maior afinco seu proselitismo”. O “pai” da CCB foi o italiano Luigi Francescon, que já havia ajudado na criação, nos EUA, da Igreja Presbiteriana Italiana. Já a Assembleia tem sua gênese na Missão Pentecostal Sueca no estado do Pará, obra dos batistas Gunnar Vingren e Daniel Berg. A partir da década de 50 os pentecostais começaram se expandir, graças em grande parte à chegada do missionário estadunidense Harold Williams, que veio instalar sua Igreja do Evangelho Quadrangular.

Ronaldo de Almeida passa apenas muito rapidamente pelo começo do pentecostalismo no Brasil, mas seria interessante desfazer nesta resenha uma falsa associação por muitos feita: entre “(neo)pentecostalismo” e “fundamentalismo”. É verdade que nas últimas décadas as plataformas sociais (contra aborto, união de homossexuais etc.) de um pentecostal e de um batista são bastante semelhantes – e semelhantes mesmo a setores da igreja Católica, particularmente a Renovação Carismática, que Ronaldo vê como a pentecostalização do catolicismo. Mas a forte semelhança embaça uma diferença não desprezível do passado fundamentalista e pentecostal. Precisamos ir aos Estados Unidos do início do século passado, com um parágrafo do monumental livro de Karen Armstrong* sobre os começos do moderno radicalismo religioso no cristianismo, islamismo e judaísmo:

Ao mesmo tempo que os fundamentalistas desenvolviam sua fé moderna, os pentecostais criavam uma visão “pós-moderna” que representou uma rejeição de base à modernidade racional do Iluminismo. Onde os fundamentalistas retornavam ao que consideravam a base doutrinária do cristianismo, os pentecostais, que não tinham qualquer interesse no dogma, retornavam a um nível ainda mais fundamental: o centro de religiosidade pura que existe sob as formulações do credo de uma fé. Enquanto os fundamentalistas sustentavam sua fé na Palavra das escrituras, os pentecostais evitavam a linguagem escrita, que, como os místicos sempre haviam insistido, não poderia expressar adequadamente a Realidade que se situa além dos conceitos e da razão. (…) Os pentecostais falavam em “línguas”, convencidos de que o Espírito Santo descera sobre eles da mesma forma que havia descido sobre os apóstolos de Jesus durante a festa judaica de Pentecostes, quando a presença divina (…) dera aos apóstolos a habilidade de falar em línguas estranhas. [p. 179]

Isso é importante, inclusive, para situar a constatação de Ronaldo de Almeida sobre como a Igreja Universal – que em muitos sentidos está na ponta do processo analisado por Armstrong na passagem acima – esquece o estudo bíblico. Em “inúmeros sermões assistidos”, notou “a pouca preocupação com uma exegese mais profunda sobre o texto bíblico; o estudo da Bíblia parece não constituir um elemento tão central para a vida religiosa. O conhecimento dele por parte dos fiéis é muito limitado, e as pregações não contribuem para aprimorá-lo. (…) Por mais que os pastores afirmem a importância do texto sagrado, o fato é que, em todos os cultos presenciados, o tempo destinado ao sermão foi sempre muito curto.”

Segundo a crença sociológica das décadas 60 e 70, o pentecostalismo encontrou nos nordestinos em São Paulo, que haviam sofrido “desordenamento de valores”, um campo ideal para plantar sua palavra. Ronaldo de Almeida considera essa teoria, mas acredita que a explicação não pára aí. Baseado em teorias mais recentes, o autor vê como determinante para o grande impulso inicial do pentecostalismo a maneira como ele sobrepôs as esferas familiares e religiosas:

As redes evangélicas trabalham em favor da valorização da pessoa e das relações pessoais, gerando o aumento da autoestima e o impulso empreendedor, além de ajuda mútua como o estabelecimento de laços de confiança e fidelidade. (…) Não se trata de programas filantrópicos, como fazem católicos e kardecistas, mas de reciprocidade entre os próprios fiéis moradores da favela (entre os quais, os próprios pastores), simbolizada no princípio bíblico de ajudar primeiro os “irmãos de fé” (frequentadores do mesmo templo). [p. 45]

Assim, os evangélicos tendem a se fechar em si mesmos. Aqueles da favela de Paraisópolis, São Paulo, que o autor estudou, “pouco participam de outros níveis associativos, tais como partidos, sindicatos, união de moradores e lazer. Os cultos competem com outras atividades no uso do tempo livre, além de as próprias denominações suprirem seus fiéis com entretenimento como, por exemplo, a formação de grupos de música, teatro, esportes etc., sempre relacionados à religião.”

Esse fechamento em muitos momentos levou as igrejas evangélicas a uma postura de passividade política, de aceitação do status quo. Enquanto o incipiente pentecostalismo estadunidense contou com duas correntes bem distintas, ainda que em vários momentos unidas por causas “maiores” – os grupos majoritariamente negros, com ativismo político, e os de brancos, com foco na espiritualidade –, o pentecostalismo brasileiro é descendente direto desta corrente mais afastada da política – de onde saíram os suecos fundadores da Assembleia de Deus, por exemplo. “Maior expressão dessa postura política”, escreve Ronaldo, “foi a posição adotada pela quase totalidade dos pentecostais durante o regime militar pós-1964”:

Valendo-se do ensinamento paulino que exorta os fiéis a obedecer às autoridades constituídas, os pregadores pentecostais não fizeram nenhum tipo de oposição ao golpe, nem à ditadura militar. A omissão em relação ao regime, por vezes o apoio a este, caracterizou a posição política pentecostal. Como contrapartida, os pentecostais, e mesmo os protestantes históricos, acabaram recebendo o apoio explícito do regime militar. [p. 28]

Tal apolitismo não poderia estar ausente das pregações na Igreja Universal, hoje em dia. O desemprego e a miséria são sempre associados a trabalhos do demônio. Em Libertação da teologia, Edir Macedo (aliás, bastante querido por alguns setores da esquerda, por conta do enfrentamento com a Rede Globo) põe o desemprego expressamente na conta das entidades afro Traca-Rua e Sete-Encruzilhadas.

*

A esta altura, o leitor esperto já se empertigou na cadeira, franzindo os cenhos: Os evangélicos, apolíticos? E a bancada deles no Congresso? E as investidas nas telecomunicações? Não parecem ações de quem quer se manter fechado em seu círculo de fé.

A contradição é apenas aparente. Os evangélicos, com raras exceções (como a ex-governadora do Rio Benedita da Silva), não entram no jogo político para mudar as regras, mas para aprofundá-las – por meio de atitudes conservadoras nos campos social e moral – e lucrar em cima delas, expandindo seu rebanho – por meio das telecomunicações.

Nota-se com interesse que, enquanto em 1982 os evangélicos elegeram apenas 2 candidatos, em 1986 esse número subiu para 18. Junto a outros 16 deputados eleitos pelos protestantes históricos, o grupo formou uma bancada que conseguiu de José Sarney concessões de rádio e tevê para suas igrejas, em troca de apoio na votação que lhe garantiu um mandato de cinco anos.

Ronaldo lembra que em 1994, ao visitar um templo da Universal na cidade de São Paulo viu afixada na parede interna uma faixa com nome e número (sem indicação de partido) de um candidato a deputado estadual e uma a federal, adornada com a frase bíblica “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. No mesmo ano, em Osasco, outro templo e outra faixa, com mais dois nomes e números de candidatos ao legislativo estadual e federal. “O que poderia parecer uma divisão interna nada mais era do que uma estratégia eleitoral para a eleição de um número maior de representantes. Segundo Freston*, a Igreja Universal distribui equitativamente entre seus candidatos os votos que cada templo é capaz de gerar.”

Em 2002, o bispo Marcelo Crivela, sobrinho de Edir Macedo, foi eleito com uma estrondosa votação e apoio da Universal. No mesmo ano, Anthony Garotinho concorreu à presidência; não teve êxito, mas em muitos momentos da corrida eleitoral ameaçou assumir a liderança das intenções de voto. Baseou seu discurso no populismo religioso, pregando contra o aborto, a descriminação das drogas e a união entre homossexuais. Ainda que nas eleições de 2006 os evangélicos tenham perdido cadeiras no Parlamento, ainda formam um grupo bastante significativo e renhido. Atualmente, uma de suas bandeiras é uma anti-bandeira: a oposição ao Projeto de Lei Complementar 122/06, que criminaliza a homofobia.

::: A Igreja Universal e seus demônios: Um estudo etnográfico ::: Ronaldo de Almeida :::
::: Terceiro Nome, 2009, 152 páginas ::: encontre pelo melhor preço :::

—–
* ARMSTRONG, Karen. The battle for God. New York: Alfred A. Knopf, 2000.
** FRESTON, Paul. Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao impeachment. Campinas: IFCH, Unicamp, 1993.

(Fonte: Amalgáma)

Via: RELIGIÃO MUNDO


 
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Publicado por em 17/10/2009 em POIMENIA

 

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Divertir para converter: igreja vira rave e reúne centenas em São Paulo

“Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens”, disse Jesus aos irmãos Simão e André enquanto andava à beira do mar da Galiléia, tal como narra o Novo Testamento em Mateus 4:19. Quase dois mil anos depois, a busca por fiéis continua intensa, mas toca-discos e caixas de som já fazem as vezes de linha e anzol na pescaria de homens. É assim, agregando jovens cristãos e não-cristãos sob lasers e estrobos, com o fio condutor da música eletrônica gospel, que eventos como o Arena Beats, da igreja Sara Nossa Terra, vêm captando centenas de novos devotos com a força das batidas.
Para conferir até que ponto a proposta de converter na pista de dança dá liga, visitamos a quarta edição do Arena no último sábado (20), na sede da SNT localizada na Rua Augusta, em São Paulo. Sem cigarros, drinks, quaisquer entorpecentes ou registro de brigas, a festa juntou 700 pessoas ao som dos DJs MP7, Mitchu, Bortolato, Debby e Olvr. Eles se engajaram em comandar salves para Jesus das 22h às 5h30 da manhã.

Para Nilton Fernandes, que idealizou e produz o evento desde 2005, esta edição deu sinais de que a produção do Arena viveu um aperfeiçoamento em relação a anos anteriores. “O painel de LED, a guitarra ao vivo, o MC acompanhando os DJs e até um desfile da Riachuelo agregaram valor ao evento, que ganhou essa cara mix”. O produtor, que realiza festas eletrônicas também junto a outras comunidades religiosas de São Paulo, acredita que as raves são espaços perfeitos para “arregimentar”, isto é, trazer novos fiéis aos cultos.

“A prova disso será o culto do sábado que vem. Após um evento como este, o número de jovens cristãos na igreja sempre aumenta”, garante. “Há inclusive muitos que entram em contato com o evangelho em uma rave e depois acabam virando até líderes de célula em uma igreja após a festa”.

Um desses líderes de célula, ou seja, de “reuniões semanais que acontecem na casa de um irmão que está precisando da palavra de Deus”, Thiago Guimarães, 18, marcou presença no Arena Beats. Habitué das raves de Jesus, ele contou o quanto curte a idéia de mostrar aos jovens que eles podem “ter Deus na balada, enquanto curtem psy ou d&b”. Convertido há três anos, acredita que uma das grandes vantagens da festa é a pregação da alegria e da celebração de maneira saudável. “Antes de me converter, sentia um vazio muito grande e tentava preenchê-lo com bebidas, drogas e sexo. Hoje o espaço foi totalmente preenchido por Jesus”.

Assim como Thiago, as amigas Débora Regina (23), Erica Bruno (32) e Priscila Magro (25) eram pura alegria. “É a primeira vez que a gente vem ao Arena. O mais legal nesse tipo de balada é a oportunidade de fazer amigos. Ficamos muito fechados em nossa própria igreja e aqui a gente pode conhecer pessoas de igrejas diferentes”.

A falta de combustível alcoólico parecia não fazer a menor a falta para as garotas. Uma delas, Débora, estava até rouca, de tanto se jogar. “É engraçado porque todo mundo pensa em igreja evangélica como uma coisa careta e chata. Dá pra fazer tudo o que se faz em uma balada normal, só que com lucidez, sem a ação de álcool e entorpecentes”.

Sem bebidas, sem drogas e sem… amassos. As meninas garantem que até rola uma troca de telefones, mas fiel que é fiel não beija na pista. “Acho que o nosso grande diferencial é que valorizamos nosso tempo, porque sabemos que somos a carne do senhor”, diz Erica, que só pretendia deixar o Arena quando a última luz se acendesse.

Fonte: ZUGNO

 
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Publicado por em 17/10/2009 em POIMENIA

 

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Dançarina de boate vira freira e ensina ‘dança sacra’ na Itália

Dançarina de boate vira freira e ensina ‘dança sacra’ na Itália

Assimina Vlahou

De Roma para a BBC Brasil

Alunos de Anna Nobili (foto: Giuseppe De Carli)Irmã Anna ensina ‘dança sacra’ a um grupo de jovens de sua diocese

Uma ex-bailarina e ex-acompanhante de homens em boates de Milão se tornou freira há um ano e agora dá aulas de dança contemporânea nos arredores de Roma.

“Antes, eu dançava sobre cubos e fazia ‘lap dance’ para homens que queriam apenas meu corpo, estava jogando a vida fora em boates transgressivas, fazendo sexo sem amor, que procurava como uma droga”, disse Anna Nobili, de 38 anos, em entrevista ao jornal La Repubblica nesta sexta-feira.

Anna Nobili entrou para a Congregação das Irmãs Operárias da Santa Casa de Nazaré e fez os votos no final do ano passado.

A dança voltou a fazer parte da vida da religiosa depois que o bispo da cidade de Palestrina, a cerca de 35 quilômetros da capital italiana, ofereceu à freira um espaço no convento para que ela pudesse ensinar passos de dança aos jovens da diocese.

Irmã Anna define o tipo de dança que faz e ensina agora como “holy dance” (ou dança sacra). “Agora, danço para Deus, e meus passos e minhas coreografias são dedicadas a ele”, afirma.

Coreografia ‘mística’

Com seu grupo de alunos, que se chama “grupo de dança litúrgica Holy Dance”, irmã Anna vai se apresentar na próxima terça-feira em uma das principais basílicas de Roma, a Santa Cruz em Jerusalém, durante a apresentação do livro Bíblia dia e noite, de Giuseppe Carli e Elena Balestri.

Anna Nobili (foto: Giuseppe De Carli)Anna Nobili diz que se tornou freira após passar por uma ‘crise mística’

Segundo a tradição, nesta igreja, uma das mais antigas de Roma, estão guardadas relíquias da cruz onde Jesus Cristo morreu.

O grupo vai dançar diante de bispos e cardeais uma “coreografia mística”, cujo titulo é “Jesus, luz do mundo”, inspirada no evangelho segundo São João.

Além de se apresentar em boates, Anna também participava de programas de televisão como bailarina. Em 1995, ela teve o que definiu como uma “crise mística” e resolveu mudar de vida.

O caminho da conversão ao catolicismo e a decisão de se tornar freira não foram fáceis, segundo a religiosa. “Foi um caminho longo e sofrido”, disse irmã Anna.

Iluminação

Na entrevista ao La Repubblica, a religiosa compara sua história a de muitas outras moças. Diz que teve uma infância violenta e sem amor. Seus pais se divorciaram quando ela era pequena e, aos 13 anos, foi viver sozinha em Milão.

Anna Nobili (foto: Giuseppe De Carli)Anna diz que procurava ‘a felicidade nas luzes do palco e da noite’

“Procurei a felicidade nas luzes do palco e da noite. Os homens gostavam de mim. Descobri a dança, e isso foi um meio para fazer conquistas. Estava no centro das atenções e jogava fora meu corpo”, afirmou.

Irmã Anna conta que teve uma espécie de iluminação, depois de tentar mudar de vida várias vezes, inclusive por meio do budismo.

“Fiz uma intimação a Deus: ‘se você está aqui, deve dizer pessoalmente, sem intermediários'”, disse.

A freira afirma que sua conversão ocorreu ao visitar a Basílica de São Francisco e Santa Clara, em Assis. Diante da basílica, irmã Anna disse que se surpreendeu com as cores do céu, sentiu a presença de Deus e começou a dançar diante das pessoas.

“No trem, de volta a Milão, percebi que Deus havia entrado dentro de mim. No espelho do banheiro, não me reconheci, houve uma transfiguração”, diz a freira.

Irmã Anna conta que ainda dançou como profissional de boate mais uma noite e, depois, desistiu.

“Eu poderia ter escolhido uma vida normal, ter uma família, filhos, mas minha busca me levou a uma escolha radical, evangélica. Aos poucos, cortei tudo. Fiz as pazes com meu pai e comecei um processo de purificação”, disse.

Fonte: BBC

 
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Publicado por em 17/10/2009 em POIMENIA

 

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O Nobel da Paz e o juíz de paz norte-americano

Um juiz de paz do Estado de Louisiana, no sul dos Estados Unidos, está sendo criticado por se recusar a dar licenças de casamento a casais inter-raciais, alegando que os filhos desses casais enfrentam dificuldades.

O juiz Keith Bardwell, do condado de Tangipahoa, negou racismo, e até afirmou que já oficializou casamentos de vários amigos negros. Mas alegou que crianças filhas destes casamentos inter-raciais não são prontamente aceitas nas comunidades de seus pais.

“Existe um problema com os dois grupos na aceitação de filhos de um casamento como este. Creio que aquelas crianças sofrem e não vou ajudá-los nisto”, afirmou.

O juiz de paz trabalha com casamentos há 34 anos e disse que, de acordo com sua experiência, a maioria dos casamentos inter-raciais não duram muito.

Ele estima que já recusou pedidos de quatro casais inter-raciais nos últimos dois anos e meio.

Bardwell também afirmou que tem “amigos negros aos montes”, mas simplesmente não acredita na “mistura de raças”. “Eles vem à minha casa, eu os caso, eles usam meu banheiro. Trato-os como todo mundo.”

O juiz acrescentou que discutiu a questão com pessoas negras e brancas antes de tomar sua decisão sobre as licenças para casamentos inter-raciais.

Outro juiz
Um dos casais que teve a licença de casamento recusada está analisando a possibilidade de apresentar queixa contra Bardwell no Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Bardwell afirma que checou a raça do casal, Beth Humphrey, de 30 anos, e Terence McKay, de 32 anos, quando eles telefonaram pela primeira vez pedindo a licença de casamento.

Humphrey, que é branca, afirmou que quando ligou para o juiz no dia 6 de outubro, para discutir a assinatura da licença de casamento, a esposa de Bardwell comunicou a posição do magistrado em relação ao fornecimento da licença.

A esposa do juiz recomendou que o casal procurasse outro juiz de paz, que acabou concordando com o casamento dos dois.

Katie Schwartzmann, advogada na Louisiana da União Americana das Liberdades Civis, uma organização não-governamental, disse que a União pediu que Bardwell fosse investigado, descrevendo o caso como “intolerância”.

A advogada citou uma decisão da Suprema Corte americana, de 1967, que estabeleceu que “o governo não pode dizer às pessoas com quem elas podem ou não podem se casar”, e acrescentou que Bardwell desrespeitou a lei conscientemente.

No entanto, o juiz negou que tenha tratado mal alguém.

Fonte: UOL

 
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Publicado por em 16/10/2009 em POIMENIA

 

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O pensar reflete no agir

Robinson Cavalcanti

Não é novidade a afirmativa que nós agimos como pensamos; que o pensar se reflete no agir. No campo religioso as ações individuais e sociais dos fiéis são, em muito, um reflexo da teologia por eles adotada, seja consciente ou não, sistematizada ou não. É a velha história que a melhor práxis é uma boa teologia.

Os pioneiros do protestantismo histórico no Brasil (a partir de 1855) possuíam uma missiologia de presença e influência, com uma ideologia de que eram portadores de uma fé superior, da democracia e do progresso. Esse pensar era vinculado a sua opção no campo da escatologia: o pós-milenismo, que tende a um otimismo histórico, e o amilenismo, que tende ao realismo.

Apenas com a chegada do pentecostalismo, da vertente “branca” do primeiro “racha” dos filhos da experiência da Rua Azuza (a partir de 1909) é que passamos a conhecer uma vertente protestante isolacionista. E aí entra a velha teoria: eles eram seguidores de uma escatologia pré-milenista e pré-tribulacionista, marcada pelo pessimismo histórico.

Mesmo com os pentecostais os ultrapassando numericamente, os históricos mantiveram a sua hegemonia no conjunto do protestantismo brasileiro até o Golpe Militar de 1964, quando além de uma compulsória “amnésia” histórica, fruto da repressão, o pré-milenismo pré-tribulacionista e o dispensacionalismo – via fundamentalismo – chegaram, também, às igrejas históricas de missão.

Sem história, sem uma teologia articulada para a ação e sem uma ética social, não adianta crescer numericamente, que não vamos ver nenhum impacto do cristianismo reformado, mas isolacionismo, dicotomia, ou o que é pior, cooptação. E o Secularismo agradece…

Tenho em minhas mãos uma das mais recentes publicações da Editora Ultimato, o livro Fé Cristã e Cultura Contemporânea – Cosmovisão Cristã, Igreja Local e Transformação Integral, organizada por Leonardo Ramos, Marcel Camargo e Rodolfo Amorim, reformacionistas, ou seja, neo-calvinistas sociais na linhagem deixada pelo pensador e político holandês Abraham Kuyper. Há uma preocupação com a cosmovisão predominante no Ocidente pós-moderno: individualismo, subjetivismo, consumismo, narcisismo, e com a necessidade de reafirmarmos a soberania de Cristo sobre toda a criação, inclusive as manifestações da cultura, tendo a Igreja e os seus membros como instrumentos históricos dessa soberania, o que passa por uma reapropriação profunda da doutrina do pecado original, bem como da encarnação e da redenção.

A obra nos chama a atenção para a íntima relação em como nós compreendemos a noção de natureza e graça, e como vemos a nossa missão e o nosso relacionamento com a ordem dita secular. Essas diferentes percepções se refletem, inclusive, no interior da corrente da missão integral da Igreja, cujo momento mais importante na história recente do Cristianismo foi o Congresso de Lausanne, de 1974.

Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, em seu capítulo A Missão Integral na Encruzilhada – Reconsiderando a Tensão no Pensamento Teológico de Lausanne – destaca as diferenças de abordagem entre três correntes de pensamento decorrentes da Reforma Protestante: a anabatista, a luterana e a calvinista.

Mesmo reconhecendo experiências como o milenarismo de Muntzer e a crítica profética de figuras recentes como Yoder, Carvalho resume o dilema anabatista (cuja visão se tornou hegemônica na América Latina na segunda metade do século 20, segundo Samuel Escobar):

“A postura anabatista vê o reino como contrário ao domínio político e procura desenvolver a vida eclesial como uma espécie de sociedade separada. Portanto, a ruptura entre natureza e graça aqui deve ser entendida do ponto de vista sociopolítico. Para alguns anabatistas, o Estado político seria uma estrutura absolutamente antinatural… Como resultado dessa ruptura, há uma dificuldade recorrente em se recomendar aos cristãos devotados que se envolvam também em atividades culturais, já que isso provocaria um conflito de lealdades. Assim, experiência cristã seria sinônimo de separação cultural. A experiência histórica do anabatismo revela um impulso praticamente irresistível para o isolamento cultural ou para uma postura contracultural ao evitar o cruzamento com a sociedade não apenas no aspecto político, mas também nas artes e nas ciências.”

A abordagem luterana, por sua vez, assim é analisada por Carvalho:

“A postura dominante no luteranismo, conhecida como doutrina dos dois reinos, apresenta uma conexão interna com a compreensão de lei e graça como duas ordens separadas. Assim, a doutrina luterana sustenta que o domínio político, embora paralelo à igreja, é separado desta. Não há ruptura, mas uma justaposição entre natureza e graça, que passam a ter uma relação apenas exterior. O cristão é descrito como um cidadão de dois reinos, com a responsabilidade de viver duas lógicas completamente diferentes, na igreja e na sociedade, procurando, sempre que possível, acomodar o princípio do amor às limitações do reino da ‘espada’ – o mundo sociopolítico. A doutrina luterana, com sua maior abertura para a natureza, proporcionou um grande enriquecimento cultural, como se pode notar pelo desenvolvimento musical nos territórios luteranos, e promoveu o desenvolvimento econômico e educacional. Porém, infelizmente, a ausência de uma conexão firme entre natureza e graça permitiu que o luteranismo fosse atingindo rapidamente pelo liberalismo teológico e pela autonomia da razão, e ao mesmo tempo forneceu base teológica ao acordo entre os cristãos alemães e o nacional-socialismo – fato que levou muitos luteranos a reconsiderarem a teoria dos dois reinos.”

Por fim, Carvalho contrasta ao anabatismo e ao luteranismo, a perspectiva calvinista:

“A tradição calvinista acredita que há apenas um reino. Lei e graça se interpenetram, enquanto que o reino de Cristo se estende extra-ecclesiam. O domínio político deve ser redimido e submetido ao governo divino por meio da ação histórica da igreja. A vida social, em sua totalidade, é vista como divinamente ordenada, constituindo o próprio lugar para se viver uma vida cristã. Não há, portanto, nem ruptura, nem justaposição, mas penetração e transformação da natureza pela graça. Assim, o calvinismo demonstra um radical impulso intramundano, que reúne dialeticamente a rejeição crítica do mundo (devido a sua pecaminosidade) e a invasão redentiva do mundo (único lugar em que a graça ganha efetividade).”

O autor aponta para o desdobramento concreto da abordagem calvinista, particularmente, no século 20, do neocalvinismo social holandês.

Estamos convencidos de que tanto o conhecimento da história geral e nacional da Igreja (e do protestantismo em particular), notadamente do seu pensamento social, notadamente ético, é urgente para a recuperação de uma cidadania responsável por parte de milhões de homens e mulheres que encontraram a vida, garantiram a vida eterna, esperam a glória após a morte, mas que são carentes de projetos existenciais consequentes e relevantes.

Para os cidadãos protestantes brasileiros, em especial para os evangélicos que se candidatam a cargos eletivos – pressionados por um secularismo travestido de laicismo, desconfortável com o retorno do Sagrado – optar e aprofundar uma teologia de missão é preliminar para romper as camisas de força que nos querem vestir os isolacionistas dentro da Igreja e os isoladores dentro do mundo. Isso já demonstrou ser historicamente possível, e a única forma de sermos obedientes ao mandato cultural e à vocação recebida do nosso Senhor, e Senhor da história das nações.

• Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo — desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br

Fonte: ULTIMATO

 
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Publicado por em 16/10/2009 em POIMENIA

 

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Dando a cara a tapa

Todo jovem sabe que declarar-se evangélico na universidade é quase como carregar uma placa dizendo “chute-me”. Pode parecer exagero, mas é fácil perceber como as lutas desenvolvidas por vários grupos sociais no espaço da universidade sempre se voltam a debater o que eles consideram a “atrasada e repressiva moral cristã”, inimiga das liberdades de expressão, pensamento, sexualidade e política. Da mesma forma, praticamente todo cristão sabe que essa religião tão criticada entre os acadêmicos reflete pouco os verdadeiros ensinamentos da Bíblia.

A Aliança Bíblica Universitária (ABU) de Belo Horizonte, MG, resolveu organizar a Semana do Cristianismo para divulgar o que consideramos ser a verdade do evangelho, tentar superar esse preconceito e mostrar que a racionalidade não é – nem nunca foi – oposta à fé em Deus. Com palestras dirigidas por grandes figuras evangélicas – entre elas Rogério Greco, Procurador de Justiça do Estado de Minas Gerais; rev. Elben César, jornalista; e Fábio, goleiro do Cruzeiro – e apresentações artísticas distribuídas em oito espaços da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Semana quer lembrar à comunidade acadêmica a relevância científica, cultural e social dos valores cristãos, bem como sua importância na vida de cada indivíduo.

Mais informações sobre a Semana do Cristianismo em www.abubh.blogspot.com

Pabline Félix

Fonte: ULTIMATO

 
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