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O reality da fé e seu shopping

01 ago
Edil Tadeu Pereira França *

Está configurado o reality show religioso e seu shopping, em Igrejas administradas, policiadas e supervisionadas, com firmeza, por líderes carreiristas e esteticamente perfeitos, que mobilizam multidões, especialmente entre os que ainda formam a periferia social, para confiná-las num refúgio milagreiro, marcado por ansiedades, exclusões e decepções.

Nesses confinamentos religiosos a ilusão é visível. Os “milagres” são raros e somente alguns são “agraciados” com “curas e libertação”. O restante da multidão deve se conformar em voltar para casa e enfrentar a vida dura, onde só há um milagre: ir à luta para conseguir sobreviver. Deve se conformar e aceitar o “paredão” da exclusão social, da falta de oportunidades, do indeterminado, do imprevisível, percebendo-se “fora do lugar em todo lugar, e em novos templos”.

Então o povo fica na fila esperando “milagres”, é sempre ludibriado e manipulado por espertos que costumam passar a perna nos simples e pobres (Jo 5,7). Igualmente se faz em espetáculos televisivos onde câmeras ficam o tempo todo exibindo beldades e seus corpos, e a intenção que resta é o “milagre econômico” em números telefônicos onde esses espertos são os próprios milagreiros e curandeiros, que deturpam e induzem as pessoas a gastarem o que não podem dispor, mas eles são especialistas em extorquir os pobres; encher seus bolsos de dinheiro; construir templos para alimentar vaidades e que estarão frequentados por um Povo de Deus manipulado em uma esperança; e que verão seus sonhos transformados em jatinhos para viagens de seus lideres, e jamais enxergarão suas famílias saírem da miséria. Sem dúvida alguma, para solucionar os problemas dos sofredores bastaria que alguém, como Jesus, dissesse: “Levante-se e ande” (Jo 5,8). Mas, na verdade eles não querem que as pessoas se levantem e caminhem com as próprias pernas. Mas preferem manter a “indústria dos milagres” que iguais aos reality shows produzem polpudas somas para os bolsos de seus lideres; além de aumentar a venda de livros e penduricalhos.

Hoje, as pessoas vivem sem referenciais, buscando elas próprias preencherem o vazio gerado por uma total ausência de solidariedade, complementaridade, intercâmbio e fraternidade. É cada um seguindo seu líder, e terminam pensando só em si, na sua segurança e na sua satisfação e no seu imediatismo. Não existe mais uma fé profunda, pois ela se transformou em um processo self-service ou de auto-serviço que ocupa o lugar central de um Cristo, distanciando o ser humano em um mundo que o jogou na periferia do crer.

As pessoas participam de grupos que se parecem com enxames de vespas porque perdem a dimensão comunitária e passam a ser manipulados por lideranças que dão as ordens. É por isso que os laços humanos são fraquíssimos e se quebram com muita frequência e facilidade; pois o ser humano continuará a viver seu auto-centrismo colocando a figura de Deus em uma redoma de vidro, que passará a ser exclusivamente “meu deus”, como objeto do mercado de consumo.

O imediatismo que leva as pessoas às igrejas onde os megas shows dão o tom da fé, transformam fiéis em transeuntes que não se encontram em uma vocação, nem pela pertença; pois a vocação é um chamar, e a pertença somente a Deus pode ser atribuída; estes dois aspectos são trocados pela “convocação” e navega em semelhanças de igual peso entre o catolicismo midiático e o neopentecostalismo; além dos movimentos gnósticos, tudo isso exige uma análise critica daqueles que veem sua fé eclesiológica exposta nos supermercados da fé , ou nos reality shows televisivos que levam a desinstitucionalização da fé ancorada em uma evangelização conflitante e uma dimensão pluralista religiosa. Nestas circunstâncias litúrgicas-performáticas, encontraremos os mais variados tipos de lideres vestindo impecavelmente, seus paramentos brilhosos ou ternos finíssimos, para controlar a subjetividade da fé, mesmo que, na prática, se mantenham completamente afastados da vida real do povo, o qual é sempre deixado para trás em suas angústias e expectativas.

Esta forma de pela qual podemos ver o imediatismo da religião encontraremos agentes ou ministros de igrejas e seitas entrarem crise, pois a disputa não está mais na situação apenas dos fiéis; mas entre grupos de homens e mulheres que irão compor a ideia financeira do espaço cultural religioso no decorrer da história. Pois se buscarmos entender a situação da humanidade, devemos se encontrar unidos pela mesma fé, no conhecimento do Filho de Deus e para crescermos no seguimento (Ef 4,13); e não por acaso, ao redor de um “curandeiro” ou de um líder à cata de milagres que satisfaçam de imediato nossas necessidades; pois assim deveremos estar atentos que “a inteligência deles tornar-se-á cega” (Ef. 4,18); porque o Cristo é a cabeça, e é ele que organiza e dá coesão ao corpo todo, através de uma rede de articulações (Ef 4, 15-16), e não baldes de “água benta” jogado sobre uma multidão delirante e ofuscada por palavras, ou falsos kits de salvação, vendidos e abençoados por lideres religiosos e ministros; que não respeitam inclusive o altar fazendo dele depósito de seus livros, como podemos ver em determinado canal onde o ministro faz um merchandising enaltecendo mais seu best-seller e o líder religioso abençoando como se isto fosse mais que o evangelho e a Verdade ensinado pelo próprio Cristo.

* Edil Tadeu Pereira França é Leigo Missionário da Consolata, teólogo e assessor CTP.

Fonte: Revista Missões

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1 comentário

Publicado por em 01/08/2012 em POIMENIA

 

Uma resposta para “O reality da fé e seu shopping

  1. Dangellis Lamartinne Rodrigues

    02/08/2012 at 08:49

    infelizmente é esta dura realidade . até quando ??

     
 
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