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Sobre a falência do estilo evangélico de ser

23 mar

Por Alessandro Rodrigues Rocha

Sobre a falência do estilo evangélico de serHá uma crise no modo de ser evangélico. Aliás, o que é ser evangélico? Indo além da compreensão popular, onde evangélico é um termo genérico que engloba as mais diversas tendências de cristianismo não católico, diríamos que por evangélico deve se compreender as igrejas que surgem direta ou indiretamente do modelo norte-americano de missão. Igrejas que se instalaram em terras tupiniquins em diversas levas e momentos. Desde o chamado protestantismo de missão até o movimento pentecostal… excluo propositalmente o chamado neopentescostalismo porque penso que ele carece de elementos internos que possam identificá-lo como evangélico (tanto do ponto de vista histórico, quanto na perspectiva neotestamentária… mas isso é uma outra conversa).

É esse movimento, a que me refiro, que se encontra em crise. Na verdade encontra-se mesmo em estado agonizante. As evidências dessa crise podem ser notadas em várias dimensões: na política, com as bancadas evangélicas envolvidas em todo tipo de corrupção; na ética, com as opções de enriquecimento pessoal e institucional; na moral, com as mais estranhas e, por vezes, perversas manias e castrações etc. Contudo, o aspecto da crise que quero enfocar é o que escolhi chamar de “estilo evangélico de ser”.

Por estilo me refiro a um conjunto de comportamentos que guiam a vida (ao menos em sua dimensão religiosa) de centenas de milhares de pessoas — Ah! sim, porque uma das evidências de tal crise é o inchaço que as igrejas evangélicas experimentam, inchaço aliás que é sempre sintoma de alguma patologia. Esse estilo evangélico de ser é caracterizado por um conjunto de elementos ou manias como, por exemplo, o linguajar (uma espécie de evangeliquês — quase um dialeto); o preconceito com relação às diferenças — de credo, orientação sexual, gostos culturais etc.; um pessimismo com relação à cultura em suas diversas manifestações.

Mais especificamente gostaria de fazer um recorte nesse estilo evangélico de ser, a saber a excessiva ênfase na razão doutrinária. Esta não toca somente em questões doutrinárias, mas se estende para todas as dimensões da vida operando uma tutela sobre a subjetividade em suas diversas expressões: os afetos, o gozo, a corporeidade. Chega ao extremo de ditar o que se deve usar ou comer, com quem se deve namorar ou casar, onde se deve ir ou não ir etc. Bem, o que de fato quero dizer é que esse vício de tutelar as pessoas tem conduzido homens e mulheres a um estilo de vida, chamado evangélico, que produz um esgotamento de possibilidades e expectativas quanto à sua capacidade de gerar um seguimento livre e saudável de Jesus.

Para ilustrar esse assalto à subjetividade alheia que o estilo evangélico de ser faz, escolhi uma canção do primeiro disco (naquela época dos LPs) da Legião Urbana Baader-Meinhof Blues. A música foi feita num contexto de repressão militar onde um dos alvos era o domínio da subjetividade. Correndo o risco de cometer incorreções, há uma semelhança entre o domínio mantido por estados políticos ditatoriais e o estilo evangélico de ser: ambos operam no âmbito do racionalismo doutrinário. Claro que não estou falando nos conteúdos das doutrinas, que nesse caso seriam bem diferentes, mas na forma de agir para o controle das mentalidades, da tutela dos afetos, da interdição da sexualidade, da formatação na forma de crer e nos conteúdos de que se deve ou não crer.

Em primeiro lugar, o estilo evangélico de ser produz uma artificialidade com relação à própria vida. Alguém que se “converte” é imediatamente convidado/constrangido a se retirar do mundo, uma fuga mundi que passa a ser um valor máximo. Contudo, por detrás dessa assepsia com relação ao mundo encontra-se um apelo à renuncia de si e à adesão a um outro que não existe de fato, que é artificial. A esse propósito cabe a intuição do poeta brasiliense:

Já estou cheio de me sentir vazio
Meu corpo é quente e estou sentindo frio

Estar cheio de se sentir vazio é a expressão limite de quem se percebe alienado de si, de quem está como que impermeabilizado e não consegue mais sentir o mundo à volta. É ter o corpo quente que pulsa por vida e só conseguir sentir a frieza fúnebre de mundos artificialmente produzidos. O resultado disso é uma atuação igualmente artificial. Quem vive artificialmente se relacionará artificialmente com seres concebidos na fria artificialidade. Nas palavra da canção:

Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber
Afinal, amar o próximo é tão demodé
.

Amor é coisa de afeto, de corpo, de face, de olho no olho. O amor não sobrevive em ambientes artificiais. Quando a lógica vigente é a da razão doutrinária, ou seja, do domínio sobre a subjetividade, a relação — que está pressuposta no amor — é inviabilizada. O ordenamento institucional toma o lugar da vitalidade comunitária, e aí o que reina é a norma jurídica. A ideia de justiça assume a dinâmica do amor, o controle assume o espaço da liberdade, os planos e metas ofuscam a emergência da criatividade. Trocar o amor pela justiça é provavelmente o passo mais eficaz para estabelecer o estilo evangélico de ser, e também o caminho mais curto para a falência da força transformadora do evangelho. Pois como o poeta intuiu profeticamente: “Essa justiça desafinada é tão humana e tão errada”.

Mesmo com toda essa força coercitiva, o estilo evangélico de ser encontra-se em franca decadência. Isso se pode notar, dentre outras coisas, no abismo que há entre os comportamentos celebrados no espaço da igreja e daqueles outros que as mesmas pessoas têm quando estão longe dos olhos dos sensores eclesiásticos. Isso tem provocado uma espécie de esquizofrenia, onde as pessoas são condenadas a sustentar uma vida hipócrita (no sentido original, onde hipócrita é aquele que usa uma máscara e está constantemente encenando um enredo que não é o seu de fato). Mas as reações a esse estado de coisas vêm emergindo em todos os cantos: pessoas que não desejam mais sustentar o uso de máscaras, que não suportam mais alienar suas subjetividades, que decidem assumir os riscos da vivência da fé na clave da liberdade vão se afirmando, sem com isso abrirem mão de viver em comunidade. Homens e mulheres que fazem do refrão da canção seu próprio hino:

Não estatize meus sentimentos.

Numa valorização daquilo que é básico na tradição protestante, é preciso dizer que não desejamos ter nossa subjetividade estatizada (ou eclesiastizada — igrejada se preferirem). É o sujeito que se apresenta a Deus e à comunidade, não é a instituição que determina minha existência e fé. Assumir essa prerrogativa de tomar as rédeas da vida nas próprias mãos é a condição fundamental para afirmar um seguimento maduro de Jesus onde não é a coerção, o medo ou as convenções sociais que estruturam a vida. Assumir a responsabilidade de estar inteiro e livre na presença de Deus e da comunidade é uma necessidade frente ao estilo falido de ser evangélico. Recuperar a primazia de “ser do evangelho” e mais importante que dar manutenção a “um evangélico”. Aos que vivem para tutelar as pessoas e para as instituições que se estruturam sobre o princípio do furto da subjetividade alheia dizemos unidos num brado retumbante:

Pra seu governo,
O meu estado é independente.

 

Alessandro Rodrigues Rocha Alessandro Rodrigues RochaAlessandro Rodrigues Rocha é pastor batista, doutor em teologia sistemática pela PUC-Rio, coordenador acadêmico da Faculdade de Teologia Evangélica do Rio de Janeiro (FATERJ), escritor nas áreas de teologia, literatura e espiritualidade. Tem 36 anos, é casado com Adriana e pai de Maria Eduarda.

Fonte: NOVOS DIÁLOGOS

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Publicado por em 23/03/2012 em POIMENIA

 

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