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Fazer nossa parte é resistir!

22 mar

Por Editores

Fazer nossa parte é resistir! 

Os estudantes universitários do Quebeque estão em greve. A cada dia, mais e mais estudantes de diferentes universidades e instituições pré-universitárias declaram greve geral e ilimitada contra o aumento das mensalidades (1). Um dos líderes do movimento estudantil explica num artigo aos estudantes o que está em jogo na greve: “Se nós recusamos a visão economicista da educação e da universidade é porque nós recusamos a visão economicista da vida” (2). Um dos slogans do movimento estudantil é: “Fazer nossa parte é resistir”. A ideia de que cada geração deve fazer sua justa parte na luta por melhores condições de vida a fim de garantir bem-estar para as futuras gerações é o horizonte ético das escolhas radicais desses estudantes quebequenses.

Há 50 anos atrás (1962), o Setor de Responsabilidade Social da Igreja (SRSI), um dos organismos da Confederação Evangélica do Brasil (a mais abrangente e longa iniciativa ecumênica das igrejas evangélicas), realizava sua quarta conferência nacional, em Recife, reunindo centenas de delegados das mais diferentes denominações e estados do país. O tema da conferência foi Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro e convidava para a mesa de diálogo intelectuais da estirpe de Gilberto Freyre, Celso Furtado, Paul Singer e Juarez Brandão Lopes. O horizonte ético do SRSI e, por conseguinte, da Conferência do Nordeste, como ficou conhecida, era pensar a nação brasileira, suas transformações e contradições para dar respostas pastorais e missiológicas à altura. Naquele momento, tratava-se de pensar o desenvolvimentismo no quadro das reformas de base (educação, reforma agrária e reforma urbana etc.), reivindicadas pelos movimentos populares.

Na década de 1950, surgiu um movimento estudantil significativo e a juventude protestante estava pronta para dialogar sobre os problemas brasileiros. Diversas lideranças evangélicas também buscaram engajar sua fé com a realidade de injustiça e transformações pelas quais passava o país naquele momento. Buscaram novos recursos teológicos para discutir e dialogar sobre a sociedade e a cultura brasileira, já que a fé protestante que haviam recebido limitava sua perspectiva, impedindo-os de enfrentar os desafios de uma sociedade em transição. A Conferência do Nordeste de 1962 foi o ápice daquele movimento, ecumênico em essência e dialogante por vocação.

Lembramos da Conferência do Nordeste e daquela geração como tempos áureos do protestantismo brasileiro pela ousadia que aqueles jovens estudantes e pastores tiveram em buscar caminhos para uma fé relevante e missionária, a partir de uma espiritualidade crítica e radical. Infelizmente as instituições evangélicas não estavam preparadas para desenvolver uma fé verdadeiramente enraizada na cultura brasileira e conectada com as mudanças que estavam ocorrendo, a fim de apresentar um evangelho integral e relevante. Os líderes daquela geração de estudantes e pastores que ousaram questionar estruturas e doutrinas caducas, tornaram-se os heróis do melhor de nossa tradição protestante. Por sua ousadia e coragem, foram entregues à prisão, tortura, exílio ou ao silenciamento. Não os suportaram. Mas eles resistiram! (3)

Graças à sua resistência, podemos olhar para nossa identidade e herança protestante brasileira com certa esperança. Os desafios são diferentes, os tempos são outros. Velhas e novas instituições estão presentes no cenário e outras hegemonias se estabeleceram. Antes, o absenteísmo transformou-se em adesismo. Agora, é a sede de poder e influência que ignora e ameaça mesmo à própria identidade evangélica, negociada ao preço do sucesso e do reconhecimento. Resta-nos fazer a nossa parte. E fazer a nossa parte é resistir!

Por Flávio Conrado

Notas
(1) As universidades e institutos pré-universitários recebem fortes subsídios governamentais, tornando acessível o ensino pós-secundário.
(2) Adaptação livre de um dos trechos do Manifesto da Universidade Quebequense, publicado em novembro de 2010. Ver o manifesto nesse link http://www.universitequebecoise.org/?page_id=11.
(3) Vários eventos estão sendo preparados para a comemoração dos 50 anos da Conferência do Nordeste. Veja na Agenda da revista para mais informações acerca destes eventos.

EditoresFlávio Conrado é editor e Clemir Fernandes, editor-adjunto de Novos Diálogos.

 

 

Fonte: NOVOS DIÁLOGOS

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Publicado por em 22/03/2012 em POIMENIA

 

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