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Crucificar os crucifixos

12 mar

Será que os cristãos têm direito a usar crucifixos ao pescoço? Depende. Se o símbolo religioso é usado em países como o Sudão ou a Nigéria, eu não aconselho tamanha insensatez: exibições blasfemas desse tipo podem significar uma condenação à morte.

Mas que dizer da decisão do governo inglês que, confrontado com um caso judicial, se prepara para considerar o uso de um crucifixo no trabalho como causa justa para despedimento?

Os pormenores vêm na última edição do “Sunday Telegraph” e reportam-se aos casos de Nadia Eweida, funcionária da British Airways, e Shirley Chaplin, enfermeira. Ambas foram suspensas por se recusarem a remover os crucifixos enquanto trabalhavam. A sra. Chaplin acabou mesmo demitida.

Christian Hartmann/Reuters
O primeiro-ministro britânico, David Cameron
O primeiro-ministro britânico, David Cameron

Agora, o governo de David Cameron prepara-se para apoiar a decisão das entidades empregadoras junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, votando a favor da proibição do uso de crucifixos. A Igreja Anglicana já protestou: a atitude do governo é um ataque à fé cristã e uma tentativa de remeter a religião para as margens da sociedade contemporânea.

Com a devia vénia aos reverendíssimos prelados, discordo. A decisão não é um ataque à religião. É pior: um ataque à liberdade individual de manifestarmos crenças ou valores em público sem temermos represálias por isso.

Essa, aliás, era a grande superioridade do Ocidente sobre o resto, a começar pelo Islã: se os outros persistem em punir com severidade qualquer desvio à fé oficial, o Ocidente, depois de séculos de conflitos sangrentos, entendeu as vantagens de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.

Isso não significa, ao contrário do que pensam os fanáticos do secularismo, que o espaço público deva ser limpo de qualquer exibição de religiosidade. Significa que, precisamente por habitarmos estados seculares, todas as exibições de religiosidade são legítimas.

Se o Ocidente começa a destruir esse património civilizacional em nome de um multiculturalismo analfabeto e demente, desconfio que nem um milagre do Altíssimo nos poderá salvar da intolerância e da decadência.

João Pereira Coutinho

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do “Correio da Manhã”, o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Record). Escreve às terças na “Ilustrada” e a cada duas semanas, às segundas, para a Folha.com.

Fonte: FOLHA

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1 comentário

Publicado por em 12/03/2012 em POIMENIA

 

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Uma resposta para “Crucificar os crucifixos

  1. Mateus Oliveira

    13/03/2012 at 00:09

    Na verdade não acho legal o cristão carregar um crucifixo no pescoço, ele deve carregar no coração o sacrifício de Cristo por nós pecadores. Quando Jesus diz toma sua cruz e me siga, ele se referia ao nosso sacrifício perante o pecado. Mas também não justifica essa atitude impensável desses “lideres”, todos tem o livre arbítrio, e liberdade de expressão. Eles deveriam combater era as drogas, a prostituição, o contrabando, os subornos, por que não? Mas, se eles estão aí é por permissão de Deus, porém, aí daquele por quem vem o tropeço, melhor seria se não tivesse nascido, ou que amarrasse uma pedra ao pescoço e se atirasse do precipício do que servir de tropeço para um desses pequeninos!!!

     
 
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