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O Palhaço de Kierkegaard (existe um “dentro” e um “fora” da Igreja?)

01 mar
Ratzinger (2005 p. 31), aludindo a Kierkegaard, apresenta em uma parábola a sensação de muitos cristãos hoje:

Certa vez houve um incêndio num circo ambulante na Dinamarca. O diretor mandou imediatamente o palhaço, que já se encontrava vestido e maquilado a caráter, para a vila mais próxima, para que buscasse ajuda, advertindo que existia o perigo de o fogo se espalhar pelos campos ceifados e ressequidos, com risco iminente para as casas do próprio povoado. O palhaço correu até a vila e pediu aos moradores que viessem ajudar a apagar o incêndio que estava destruindo o circo. Mas os habitantes viram nos gritos do palhaço apenas um belo truque de publicidade que visava levá-Ios em grande número às apresentações do circo; aplaudiam e morriam de rir. Diante dessa reação, o palhaço sentiu mais vontade de chorar do que de rir. Fez de tudo para convencer as pessoas de que não estava representando, de que não era um truque e sim um apelo da maior seriedade: tratava-se realmente de um incêndio. Mas a sua insistência só fazia aumentar os risos, achavam excelente a sua performance – até que o fogo alcançou de fato a vila. Aí já era tarde, e o fogo acabou destruindo não só o circo, como também o povoado.

Ninguém acredita no palhaço, pois fala como palhaço, veste-se como palhaço e, portanto, sua mensagem é interpretada como a de um palhaço – sem nenhuma seriedade. Muitos dos que se apresentam com fé em nossos dias sentem-se de fato como alguém vindo de outra realidade, “de um sarcófago antigo, apresentando-se ao mundo de hoje nos trajes e com o pensamento da antiguidade.” (RATZINGER, 2005, p. 32). Por vezes muitos cristãos cultivam a ilusão que são homens e mulheres de outro mundo, de outras sociedades, esterilizados da contaminação das sociedades em que vivem e amedrontados diante dos que consideram os “de fora” e contra os quais apenas resta proferir impropérios de condenação.

Segundo Ratzinger (2005, p. 33) não se pode permanecer nesta ilusão de que há uma grande distância entre os membros da Igreja e os não crentes. Eles não são tão diferentes assim. Ambos os grupos pertencem ao mesmo mundo, à mesma sociedade. Não partilham as mesmas “verdades”, mas dividem as mesmas inseguranças. 

[O cristão] terá que compreender que sua própria situação pouco se distingue da dos outros, ao contrário do que ele talvez tenha pensado inicialmente. Perceberá que em ambos os grupos estão presentes as mesmas forças, muito embora estejam agindo neles de maneiras diversas. (RATZINGER, 2005, p. 33, grifo nosso).

Utilizando-se da imagem de um filme que retrata um Jesuíta abandonado ao mar atado a uma trave do barco, Ratzinger (2005, p. 35) descreve os crentes e os descrentes de todos os tempos. O ser humano atado à trave no enorme oceano é imagem da situação de todos nós, que somente podemos olhar para cima, confiando em nossa pequena tábua de certezas tendo abaixo de si o imenso oceano do “talvez”. A dúvida é o oceano que une descrentes e crentes, ambos sem poder escapar ao dilema humano de jamais ter a absoluta firmeza racional de suas afirmações. “Tanto fiel como o incrédulo participam, cada um à sua maneira, da dúvida da fé” (RATZINGER, 2005, p. 36).
Os estudos acerca dos processos de subjetivação e a análise institucional concordam aqui com o teólogo Ratzinger. Nenhuma instituição humana se constrói fora dos jogos de poder e das linhas de força que perpassam as sociedades humanas. Não há um dentro e um fora das instituições. A Igreja, portanto, não pode ser considerar-se como um ente isolado, pois os modos de existência de seus membros também se forjam nas mesmas linhas de força que perpassam todo o real. Seu único diferencial não é “seu”. Vem-lhe de fora: o Espírito Santo. De resto, todos fazem parte da mesma humanidade e como tal precisam sentir-se. Deus se fez humano em Jesus. Não há porque um cristão sentir-se alguém de fora do humano.
Cabe, portanto, às instituições eclesiais, reconhecer-se como membros de uma mesma humanidade e, corajosamente, sair de seus casulos para o diálogo franco e aberto com o mundo de hoje. Somente assim a Igreja poderá, novamente, adquirir qualquer relevância na edificação de sociedades mais justas e fraternas. Há que se reconhecer que os filhos da Igreja são filhos também do mundo, e que, desde dentro, precisam fecundar a história com a força da vida que vem do Evangelho.
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Publicado por em 01/03/2012 em POIMENIA

 

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