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Jovens tentam converter ‘pecadores’ na rua Augusta

05 fev

DANILA MOURA
DE SÃO PAULO

Pães, bolachas, leite e café, muito café, em plena madrugada de sábado. Cerca de 30 jovens encaram esse lanche reforçado num casarão da rua Avanhandava, região central. O destino deles é o Baixo Augusta, vizinhança cheia de atrações à noite, entre bares fuleiros, moderninhos e prostíbulos decadentes.

Maria do Carmo/Folhapress
Jovem religiosa da missão Thalita Kum, que evangeliza pelas calçadas da rua Augusta, atrás de jovens "pecadores"
Jovem religiosa da missão Thalita Kum, que evangeliza pelas calçadas da rua Augusta, atrás de jovens “pecadores”

No “esquenta”, a cerveja dá lugar à oração. A tarefa não é descolar um paquera ou dançar até o chão. Os jovens fazem parte da missão católica Thalita Kum (“levanta-te”, em hebraico) e saem pela madrugada com o intuito de tirar outros da vida profana.

A missão integra o grupo Aliança da Misericórdia, criada há 12 anos por dois padres. Com sede em São Paulo, hoje está presente em 36 cidades do país e do exterior. Também faz parte da Aliança a missão Maria Madalena, cujos itinerários incluem bailes funk e pontos de prostituição na região de Perus, na zona norte da capital.

Em comum, as duas turmas largaram o conforto familiar pelo voto de pobreza. Entre as tarefas que devem cumprir está morar em uma favela por alguns meses para saber como é passar pelas dificuldades do local.

Fazer parte da missão também exige disciplina. Além do voto de pobreza, é necessário viver em comunidade num curso preparatório de três anos. “Meus pais não aceitaram quando eu vim de Indaiatuba para morar aqui com o meu irmão. Agora, até pensam em se mudar para cá”, diz Rafael Menezes, 24.

O celibato não é obrigatório. Quando um deles se apaixona por outro, o orientador deve ser avisado. Se for recíproco, fazem votos de namoro, vão morar em endereços distintos e ganham o direito de se encontrarem sozinhos eventualmente. Após o casamento, vão morar em uma das casas dentro das comunidades, separados dos demais -uma prática comum.

Mesmo com tantas restrições, ainda há atividades mais “descoladas”, como as idas à Cristoteca, espécie de discoteca gospel localizada em bairros como o Brás, na região central, onde não entram bebidas alcoólicas.

  Maria do Carmo/Folhapress  
Jovens da missão católica Thalita Kum durante oração de aquecimento para a pregação noturna entre turmas de baladeiros
Jovens da missão católica Thalita Kum durante oração de aquecimento para a pregação noturna entre turmas de baladeiros

Saindo por aí
Os jovens fiéis moram em comunidades coletivas, como a da rua Avanhandava, visitada pela reportagem durante a incursão baladeira. Antes de sair pela vizinhança, eles formam um círculo de oração numa das capelas do espaço. O intuito é o de se proteger de eventuais represálias e pedir iluminação divina para a empreitada, que inclui “livrar os jovens de vícios”, como a bebida, o sexo fácil, as drogas e outros pecados.

Durante a visita, a reportagem foi surpreendida: todos juntaram as mãos em oração por este texto. Ainda na comunidade eles trocam histórias sobre outras passagens noturnas pela Augusta, que inclui relatos de uma prostituta arrependida e de uma adolescente de 14 anos que perdeu os pais e saía pelos clubes bebendo até cair. As narrativas de sucesso das evangelizações dão ânimo aos presentes para encarar a maratona cristã.

Os preparativos também incluem pinturas divertidas nos rostos dos mais empolgados. Os músicos afinam o violão e o grupo já organiza quais serão os trios que formarão durante a caminhada. Ninguém pode se perder ou ficar só. As portas se abrem e todos saem pela rua sem se intimidar.

“Já aconteceu de vizinhos jogarem água na gente. É comum tirarem sarro na rua, mas não estamos nem aí”, conta Adriana Garcia de Aguiar, 29, fonoaudióloga que largou o diploma e o aconchego da casa dos pais em Piracicaba, cidade do interior paulista, para viver religiosamente, assim como a maioria dos seus irmãos de fé. A profissão? Não exerce mais.

Apesar de a região do Baixo Augusta ser famosa por ataques homofóbicos e de intolerância, essa turma jamais sofreu atos de violência -a oração do esquenta deve ser forte.

Sem pena do gogó, começa a cantoria. Os integrantes cantam alto hinos de louvor e frases como “Jesus te ama”. As palavras ressoam como um choque térmico nos ouvidos de quem está bebericando um drinque nos bares e inferninhos.

Olhares surpresos
“Socorro, o que é isso, pelo amor de Deus?”, pergunta a publicitária Juliana Canhadas, 28, frequentadora da região que assistia perplexa à romaria dançante. A explicação dada pela reportagem não é suficiente para tirar a expressão de assombro da moça.

Grande parte reage dessa forma. Começa a subida, piadinhas são ouvidas aos montes, ao mesmo tempo em que eles interagem em clima informal com quem está aberto a conversar. Sobram olhares surpresos. Afinal, o grupo percorre a rua aos pulos e, não raro, empunham uma santa gigante que entrecorta o trajeto pecaminoso.

Alguns se rendem à doçura da turma, como as garotas de programa da região. E as piadinhas acabam se transformando em pedidos de oração.

SERVIÇO

Para conhecer a missão Thalita Kum, não é preciso agendar horário.

Casa Cenáculo-Emannuel
R. Avanhandava, 616, Bela Vista, SP, tel. 0/xx/11/3237-3061.
www.misericordia.com.br

 

Fonte: FOLHA DE SAO PAULO

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Publicado por em 05/02/2012 em POIMENIA

 

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