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As lições econômicas de Belém

15 dez

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No cerne da história de Natal jazem algumas lições importantes relativas à livre iniciativa, ao governo e ao papel da riqueza na sociedade.

Comecemos com uma das mais famosas frases: “Não há vagas na hospedaria”.  Essa frase é frequentemente evocada como sendo uma cruel e desapiedada rejeição aos exaustos viajantes José e Maria.  Várias versões da história suscitam imagens do casal indo de hospedaria em hospedaria, suplicando por uma vaga, apenas para serem seguidamente dispensados pelos donos que, aos berros, mandavam-nos irem embora, fechando estrondosamente a porta.

Mas a verdade é que as hospedarias estavam absolutamente lotadas em toda a Terra Santa por causa de um decreto do imperador romano.  Esse decreto ordenava que toda a população fosse recenseada e cada pessoa, tributada.  Por outro lado, hospedarias são empresas privadas e, sendo assim, os clientes são a sua única força vital.  Portanto, não haveria razão alguma para que o dono de alguma hospedaria rejeitasse aquele homem de linhagem aristocrática e sua bela e grávida esposa.

De qualquer forma, o segundo capítulo de São Lucas não diz que eles foram continuamente rejeitados por todas as hospedarias que procuravam.  Ao contrário, o capítulo relata a caridade peculiar de um proprietário de uma hospedaria, talvez a primeira pessoa que encontraram, e que, afinal, era um (pequeno) empresário.  Sua hospedaria estava lotada, mas ele lhes ofereceu o espaço que restava: o estábulo.  Não há qualquer menção sobre o proprietário da hospedaria ter cobrado qualquer coisa do casal, nem mesmo uma moeda de cobre, embora ele certamente pudesse ter feito isso, considerando-se seus direitos como proprietário do estabelecimento.

Assim, é extraordinário pensar que, quando o Verbo se faz carne com o nascimento de Jesus, isso se deu por meio do trabalho intercessor de um comerciante privado.  Sem sua assistência, a história certamente teria sido muito diferente.  As pessoas frequentemente reclamam da “comercialização” do Natal, porém resta claro que o comércio estava lá desde o início, exercendo um papel louvável e essencial.

E, ainda assim, sequer sabemos o nome deste proprietário da hospedaria.  Nos mais de dois mil anos em que celebramos o Natal, estão ausentes quaisquer homenagens a ele.  Mas esse é o destino reservado aos comerciantes ao longo da nossa história: utilizamo-los sempre, mas ignoramos todos os seus serviços prestados à humanidade.

Claramente, se havia uma escassez de espaços para hospedagem, isso certamente era um evento atípico, criado por algum tipo de distorção no mercado.  Afinal, se esse tipo de escassez fosse algo frequente em Belém, empresários e empreendedores já a teriam notado, pois sabiam que poderiam colher grandes lucros caso satisfizessem essa demanda não atendida.  Assim, eles se atropelariam para corrigir esse problema sistemático, construindo mais hospedarias.

Mas foi por causa de um decreto governamental que Maria e José, e muitos outros como eles, estavam viajando.  Eles abandonaram suas moradias e se puseram a viajar por puro temor dos recenseadores e dos coletores de impostos.  Mais ainda: apenas considere os custos dessa árdua viagem “desde a Galiléia, saindo da cidade de Nazaré, até a Judéia, em direção à cidade de David”, pra não falar dos custos de oportunidade que José teve de enfrentar ao ter de largar seus próprios negócios.  Portanto, temos aí outra lição: as leis coercivamente impostas pelo governo distorcem o mercado.

Seguindo adiante com a história, chegamos aos Três Reis, também chamados de Magos.  A maioria dos reis daquela época se comportava como Herodes, o mandante local do Imperador Tibério.  Herodes não apenas ordenou que as pessoas saíssem de suas casas e pagassem a conta de suas viagens — para que elas pudessem ser tributadas —, como também era um mentiroso contumaz:  ele disse aos Três Reis Magos que queria saber o paradeiro do menino Jesus para que ele pudesse “ir adorá-Lo”.  Na verdade, Herodes queria era matá-Lo.  Mais uma outra lição: nunca confie em um político ou num sabujo de um político. Eles sempre mentem em benefício próprio.

Após terem encontrado a Sagrada Família, quais presentes os Reis Magos trouxeram?  Não foram sopa e sanduíches, mas “incenso, mirra e ouro”. Esses eram os itens mais raros e difíceis de serem obtidos no mundo daquela época, e eles certamente estavam cotados a um preço de mercado extremamente alto.

Mas longe de rejeitá-los como extravagantes, a Sagrada Família aceitou-os como presentes dignos do divino Messias.  Também não há qualquer registro sugerindo que a Sagrada Família pagou algum imposto sobre ganhos de capital, não obstante tais presentes tenham aumentado enormemente seu patrimônio líquido.  Portanto, mais uma lição:  não há nada de imoral em relação à riqueza; riqueza é para ser valorizada, gerida privadamente, presenteada e comercializada.

Quando os Três Reis Magos e a Sagrada Família souberam dos planos de Herodes para matar o recém-nascido Filho de Deus, eles se entregaram?  De forma alguma.  Os Reis Magos, sábios que eram, tapearam Herodes — descumprindo a promessa de contar a ele onde estava o menino Jesus — e “regressaram por outro caminho à sua terra”, arriscando suas vidas voluntariamente (Herodes depois viria a conduzir uma busca furiosa por eles).  Quanto a Maria e José, um anjo aconselhou José a “pegar a criança e sua mãe, e levá-los até o Egito”.  Ou seja, eles resistiram e não se entregaram.  Lição número quatro: os anjos estão do lado daqueles que resistem ao governo.

Nas narrativas do Evangelho, o papel da iniciativa privada, bem como todos os malefícios do poder governamental, estava por todos os lados.  Jesus utilizava exemplos comerciais em suas parábolas (por exemplo, os trabalhadores dos vinhedos e a parábola dos talentos) e deixava claro que Ele havia vindo salvar até mesmo os pecadores mais ultrajantes, como os coletores de impostos.

E assim como Seu nascimento foi facilitado pelo proprietário de uma “hospedaria”, a mesma palavra grega — “kataluma” — é empregada para descrever o local da Última Ceia, logo antes de Jesus ser crucificado pelo governo.  Assim, a livre iniciativa estava lá desde o nascimento até a morte, presente em todos os momentos da vida de Jesus, fornecendo refúgio, segurança e produtividade.

Assim como faz em nossas vidas.

Lew Rockwell é o presidente do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.

Fonte: INSTITUTO LUDWIG VON MOSES

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Publicado por em 15/12/2011 em POIMENIA

 

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