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Descarte de livros é crueldade em país carente de leituras

31 ago
O espaço das livrarias é ocupado preponderantemente por seus novos livros e o volume de títulos serve para compensar fracassos editoriais

“O espaço das livrarias é ocupado preponderantemente por seus novos livros e o volume de títulos serve para compensar fracassos editoriais”

Marcelo Semer
De São Paulo

 

Reportagem recente do caderno Sabático, no jornal Estado de S. Paulo, trouxe uma notícia no mínimo alarmante.

Renomada editora aventa a hipótese de dar fim a um estoque de livros que pode chegar até a dois milhões de exemplares – “algo de que a gente poderia se desfazer sem afetar em nada”, diz um diretor.

Somando o excesso de publicações em todas as editoras, o encalhe supera cinquenta milhões.

Problemas de sobras de livros não são novos. Todavia, pelo retrato do mercado editorial pintado na matéria, o número de lançamentos tem aumentado mais do que o crescimento dos leitores, justamente por causa das publicações e do marketing mais agressivo das próprias editoras de ponta.

O espaço das livrarias é ocupado preponderantemente por seus novos livros e o volume de títulos serve para compensar fracassos editoriais.

Quaisquer que sejam as razões dos encalhes, e os custos da armazenagem e distribuição, parece um enorme contrassenso, que beira o absurdo, a destruição de tantos livros em um país pobre e carente de leitura.

Não há de faltar olhos em condições de lê-los, tanto mais páginas que não precisam ser pagas.

A humanidade conviveu com o Index da Inquisição, com a queima de livros de nazistas e com uma sentença de morte de quem questionou a fé nas páginas de um romance. Vivemos o suficiente de censura entre nós, quando até a posse de um livro foi motivo bastante para a prisão e a tortura.

O aprendizado de tantos erros deve nos ensinar a quebrar obstáculos entre pessoas e livros, não criá-los. Diminuir as distâncias, jamais aumentá-las.

Várias iniciativas procuram estimular oportunidades de vivenciar esse compartilhamento, como o “bookcrossing”, em que pessoas deixam livros em lugares públicos para que outros os encontrem e leiam, criando bibliotecas a céu aberto. Longe, muito longe, do simples descarte das sobras.

É verdade que a incipiente educação brasileira pode ser hoje um impeditivo tão grande à leitura quanto foram as antigas proibições.

Há décadas que a educação pública não figura entre as prioridades. Salários de professores são constantemente aviltados, escolas chegam a ser insalubres. A qualidade do ensino patina.

Mas nada disso retira a crueldade que é desperdiçar, jogar ao lixo, ou às guilhotinas, milhões de páginas que não chegaram a ser lidas e que só teriam a engrandecer qualquer aprendizado.

Ideias que ainda podem ser aceitas, histórias contadas ao vazio, emoções que naufragam sem ter sido divididas.

Como leitor, o desperdício das palavras me revolta; como escritor, me ultraja.

Bibliotecas carentes de orçamentos generosos, escolas públicas com livros empoeirados, leitores sedentos de boas oportunidades ao alcance de uma rede social.

Nada disso é tão difícil de ser encontrado para impedir um ato que mesmo sendo economicamente justificável, não deixa de ser simbolicamente tão agressivo.

Salvemos os livros. Porque, ao final das contas, eles também podem nos salvar.

Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de “Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho” (LTr) e autor de “Crime Impossível” (Malheiros) e do romance “Certas Canções” (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Fale com Marcelo Semer: marcelo_semer@terra.com.br 

Fonte: TERRA MAGAZINE

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Publicado por em 31/08/2011 em POIMENIA

 

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