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O que há de errado com a nossa espiritualidade?

30 ago

A espiritualidade é a atenção que damos a alma, ao mundo interior invisível de nossa vida.

Por Eugene Peterson

Falar de espiritualidade neste mundo do século XXI é falar de um tema cuja relevância salta aos olhos. Diante de uma sociedade faminta por significado existencial, sedenta pelas coisas da alma humana e cada vez mais curiosa sobre Deus, é fundamental que a Igreja de Cristo não se furte a ensinar e pregar as Sagradas Escrituras. Na verdade, isso sempre foi necessário desde a proclamação do célebre “Ide” – mas há hoje uma urgência contemporânea pela anunciação das boas novas do Evangelho, porque somos cercados por “espiritualidades” que, ignorando a pessoa de Jesus, desenvolvem-se a partir das muitas e variadas experiências de cada um. Sabemos que o Espírito Santo, ao longo de toda a Bíblia, fornece ao homem o mapa da verdadeira espiritualidade. As histórias que ela conta nos convidam a um outro mundo que não o nosso – um mundo maior que nós mesmos. As histórias bíblicas nos convidam ao mundo da criação, da salvação e da bênção de Deus.

Evidentemente, todo o cânon sagrado é um texto integral – mas o evangelho de Marcos, o segundo livro do Novo Testamento, tem certa primazia. Afinal, ninguém nunca havia escrito um evangelho cristão quando Marcos escreveu o dele. Com isso, criou um novo gênero. Sua forma de escrever que logo se tornou fundamental e formativa para a vida da Igreja e do cristão. Isso veio contrastar com a preferência antiga pela criação de mitos, prática que reduzia os humanos a meros espectadores do sobrenatural. Também vai de encontro à predileção moderna pela filosofia moral, concepção que nos torna responsáveis por nossa própria salvação.

A história narrada no evangelho segundo Marcos é o relato verbal da realidade que, como seu assunto – a Encarnação – é, ao mesmo tempo, divina e humana. Ela revela algo que jamais concluiríamos por nossa própria observação, experiência ou suposição; e, ao mesmo tempo, nos envolve, colocando-nos na ação como receptores e participantes, sem jogar para nós a responsabilidade de fazer tudo dar certo. As implicações disso para nossa espiritualidade são enormes, já que a forma, por ela mesma, nos protege das duas principais práticas que levam a pessoa a se afastar do caminho certo: a de viver como espectador leviano dos fatos, exigindo sempre atrativos novos e mais exóticos vindos do céu; ou como moralista ansioso, aquele que toma sobre seus ombros todas as cargas do mundo. A própria forma do texto molda em nós reações que tornam muito difícil sermos simples espectadores ou moralistas. Não estamos diante de um texto que podemos dominar. Pelo contrário – somos dominados por ele.

A espiritualidade é a atenção que damos à alma, ao mundo interior invisível de nossa vida – um mundo que é a essência de nossa identidade, esta alma à imagem de Deus que engloba toda nossa individualidade e glória. A espiritualidade pode parecer uma coisa maravilhosa, mas vinte séculos de experiência cristã diminuíram bastante o entusiasmo que ela outrora provocava. E sua prática não se mostra tão maravilhosa. Olhando para nossa história, não nos admiramos ao verificar que a espiritualidade costuma ser vista com desconfiança, quando não com hostilidade declarada. Isso acontece porque, na prática, e com muita freqüência, ela se transforma em neurose. Em nossos dias, temos visto a espiritualidade – ou uma suposta espiritualidade – descambar para o egoísmo, principalmente quando vira mera pretensão.

Mas como isso pode acontecer? A resposta é simples: isso acontece quando nos afastamos da história do Evangelho de Cristo e adotamos a nossa própria experiência, e por quê não dizer, a nós mesmos como elemento fundamental e autorizado da espiritualidade. Passamos a fazer a exegese em nós mesmos como se fôssemos textos sagrados. Não jogamos o Evangelho fora; contudo, ele fica na prateleira e pensamos que lhe conferimos honra consultando-o de vez em quando, como uma obra de referência indispensável. Por outro lado, nossos orientadores espirituais nos ensinam que somos seres gloriosos e almas preciosas. Somos levados a acreditar que nosso anseio pela santidade, bondade e verdade é magnífico. Mas a espiritualidade não está em nós mesmos, pois o próprio Deus revelou que ela está em Jesus. Como em tudo nesta vida, espiritualidade é coisa que se aprende – e o evangelho segundo Marcos é um texto didático para se entender o que é a espiritualidade.

Tomamos o texto e lemos a história de Jesus, uma história estranha. Na verdade, o evangelista conta muito pouco do que nos interessa em uma história. Não ficamos sabendo sobre Jesus praticamente nada do que queremos saber. Não há descrição da sua aparência; nada ali é dito sobre sua origem, sobre quem eram seus amigos. Informações sobre a educação que recebeu, ou sobre sua família, são inexistentes. Fica difícil avaliar ou entender uma pessoa sem esses dados. E também há muito pouca referência ao que o filho de José e Maria pensava e sentia, suas emoções e lutas interiores. Embora Jesus seja a pessoa mais citada, o texto é surpreendentemente reticente quanto a ele. [LEIA +]

Fonte: CRISTIANISMO HOJE

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Publicado por em 30/08/2011 em POIMENIA

 

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