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“Os jovens não devem estar apenas nas salas de aula”

10 out

Marwaan Macan-Markar, da IPS

O economista e empresário de Bangaldesh Mohammad Yunus, que agitou várias conferências mundiais ao defender o microcrédito como um direito fundamental dos pobres para iniciar pequenos projetos, agora cria uma educação terciária voltada à ação. “A educação deve integrar-se à vida, com verdadeiras ações e experiências”, disse aquele ficou conhecido como “banqueiro dos pobres”, por promover o microcrédito para os mais desfavorecidos e criar o Banco Grameen em seu país em 1983, que oferece pequenos empréstimos aos camponeses em exigir garantia. Por seu esforço na promoção do desenvolvimento econômico e social Yunus recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2006.

Este economista de 69 anos criou esta semana o Centro Yunus, no Instituto Asiático de Tecnologia (AIT) de Bangcoc, que promove diversos programas de desenvolvimento. Yunus tem um vínculo de longa data com o AIT, convencido de sua missão como universidade regional a favor do desenvolvimento sustentável. O instituto entrará com a maior parte do orçamento do Centro, com o qual colaborarão outras organizações como a Agência Sueca de Desenvolvimento Internacional.

A nova instituição, que abrirá no final deste ano, pretende contribuir para acabar com pobreza rural incentivando os camponeses “a cuidarem de suas próprias rendas mediante projetos agrários geridos por eles mesmos. Queremos atrair estudantes interessados em marcar uma mudança em suas sociedades mediante programas inovadores”, explicou o economista em entrevista à IPS, após o lançamento do Centro Yunus, na quarta-feira.

IPSO senhor acaba de lançar um centro educacional que pretende contribuir para acabar com a pobreza. Não é o primeiro com essas características, qual a sua especificidade?

MY– Não será apenas um centro de pesquisa, mas de ação. Não nos dedicaremos a produzir documentos, queremos que os estudantes se envolvam e criem seus próprios programas para ajudar as comunidades locais. Poderão demorar um ou dois anos, ou um pouco mais, para acabar seus projetos. Mas esse será o requisito para ingressarem na instituição.

IPSTem em mente um novo sistema educacional?

MY– Sim. A aprendizagem se dará mediante questionamentos do fato e analisando o que resta fazer. Os professores serão espectadores. Os estudantes terão a iniciativa, deverão compartilhar seus planos com eles e explicar-lhes como pretendem realizá-los. O papel do pessoal docente não será criticá-los, mas procurar saber mais.

IPSO que o levou a seguir esse caminho?

MY– Sempre tive em mente esse modelo educacional. Os jovens não precisam estar uma sala de aula. Têm uma grande capacidade para realizar mudanças e uma tremenda energia. Devem sair e lidar com os problemas reais e tentar resolvê-los.

IPS Pode ser que faça parte de sua própria trajetória de trabalho com os mais pobres? Apesar de ter estudado economia, feito doutorado e dado aulas em uma universidade convencional.

MY– Assim começou meu trabalho com o Banco Grameen. É verdade, foi o que fiz ao sair da universidade e criei essa instituição trabalhando com comunidades camponesas. Por isso digo chega de escrever teses. Há muita gente fazendo isso. Mas agora é preciso pessoas que saiam a campo e identifiquem os problemas reais das comunidades pobres, sejam assuntos ambientais, de pobreza, agricultura, saúde ou moradia, e procure resolvê-los.

IPS Significa que as universidades e o ambiente acadêmico tradicional não conseguem resolver certas questões que o preocupam, como agricultura ou segurança alimentar?

MY– Há muitos vazios. Os professores não têm conhecimentos práticos. Vivem em torres de marfim. É preciso integrar a vida à educação porque muda constantemente e os planos de estudo ficam ultrapassados. Deveria estar na vanguarda e não difundir conhecimento velho. A educação implica difundir conhecimento do futuro para que as pessoas possam aplicá-lo na realidade.

IPSO que pensa do contribuição científica que significou a Revolução Verde, que segundo os pesquisadores resolveu a fome em certas regiões?

MY– A melhor mudança tecnológica para a agricultura ocorreu nos anos 60 graças à Revolução Verde. Houve um repentino aumento da produção agrícola, especialmente do arroz. Mas, a situação parece ter se estancado. Desde então não foram registrados grandes avanços. O mundo mudou, mas a agricultura não seguiu o ritmo. O fornecimento de alimentos aumenta lentamente, enquanto o mercado se expande.

IPSPor que o conhecimento científico relacionado com a agricultura não seguiu o ritmo das mudanças sociais?

MY– Porque há áreas que são mais interessantes para a ciência e onde há mais dinheiro, como as tecnologias da comunicação e os telefones celulares. Têm um mercado maior e atraem milhões de pessoas que querem ter um celular. Os grandes investimentos foram nessa direção e não para a agricultura. Por isso é preciso ser um empreendimento social. Essa é a idéia que quero levar adiante com o novo centro. Trata-se de conseguir um impacto social, não de fazer dinheiro.

IPS– Mas vai contra a tendência dos jovens que emigram para as cidades em busca de melhores oportunidades. Como conseguirá que a vida rural seja atraente para eles?

MY– Da forma como funciona a economia hoje, todo mundo quer saber onde está o dinheiro. Talvez não se dirigem a uma aldeia porque não está ali. Mas, quando se procura sair desse modelo que diz que a vida tem de ser assim e falam para você: “pode ser feliz tentando resolver os problemas das pessoas”, as coisas são vistas de outro modo. Concentrem-se no impacto social, em um compromisso ou uma dedicação. É algo que lhes sairá do coração e pelo qual vão cobrar.

(IPS/Envolverde)

Fonte: MERCADO ÉTICO

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Publicado por em 10/10/2009 em POIMENIA

 

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