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Entenda para que creiais, crê para que entendas.

24 set

Lavrando em campos distintos

É inconcebível que a filosofia seja má, visto que torna os homens virtuosos. Por isso, ela deve ter sua origem em Deus, que só pode fazer o bem e, por sinal, os homens maus não costumam interessar-se por filosofia

Uma religiosidade irrefletida deveria ser evitada a todo custo! O contraponto de uma religiosidade irrefletida é uma espiritualidade inteligente. A espiritualidade inteligente considera a razão como companheira na reflexão da prática da religião, pois, a prática da religião sem reflexão conduz ao erro.

Não existe processo de reflexão que não se utilize da razão. Quando consideramos a razão à luz da fé, descobrimos para a nossa grande surpresa que ambas não são auto-excludentes como muitos imaginam. Ao contrário, podem muito bem ser complementares!

Os postulados da fé, as formulações teológicas que sistematizam as doutrinas cristãs, carregam em si o lume da razão. O embate entre fé e razão só se faz necessário por causa dos desatinos de uma e do fanatismo da outra.

Ainda que muitos julguem impossível conciliar fé e razão, o fato é que tampouco se pode dissociá-las! A fé não desmerece a razão nem esta se desfaz daquela. Idealmente, deveriam caminhar juntas dispensando o respeito e reconhecimento devidos uma à outra.

Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), figura importante do período Patrístico, defensor do diálogo entre fé e filosofia diz-nos: “É inconcebível que a filosofia seja má, visto que torna os homens virtuosos. Por isso, ela deve ter sua origem em Deus, que só pode fazer o bem (…) e, por sinal, os homens maus não costumam interessar-se por filosofia”.

Alguns anos após Agostinho de Hipona também vai lidar com a filosofia sem hesitar em colocá-la, juntamente com as ciências, a serviço da teologia.“…Agostinho antecipou, também, a célebre frase de Anselmo de Cantuária: Credo ut intelligam (creio para entender). No sermão 43,7, assim ele se expressa, de maneira lapidar, para mostrar a relação entre o crer e o entender: Entenda para que creiais, crê para que entendas.”

Para outros, entretanto, o antagonismo entre a razão e a fé é irreconciliável, como é o caso de Tertuliano (155-235 d.C), feroz opositor da filosofia. Radical, sintetiza-nos o seu desprezo pela filosofia com as seguintes palavras:“Que tem a ver Atenas com Jerusalém? ou a Academia com a Igreja? Ou os hereges com os cristãos? A nossa doutrina vem do pórtico de Salomão, que nos ensina a buscar o Senhor na simplicidade de coração. Quanto a nós, não temos necessidade de indagações depois da vinda de Cristo Jesus, nem de pesquisas depois do Evangelho. Nós possuímos a fé e nada mais desejamos crer. Pois começamos por crer que para além da fé nada existe que devamos crer.”

Muito embora se reconheça as peculiaridades de uma e de outra, que às vezes conduzem a problemas de difícil solução, tem se encontrado tanto nos bastidores da igreja, como nos corredores da academia, aqueles que insistem que fé e razão podem caminhar juntas. Além de Agostinho de Hipona, outro grande nome da teologia cristã, Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.), encara a filosofia sem sobressaltos e até encontra nela preciosa aliada.

Em Tomás de Aquino, “a revelação não anula a razão, e esta não anula a revelação nem se confunde com ela.”

Diferentemente de outros religiosos que rechaçam o intelecto, para se orientarem exclusivamente pela fé mística, esses dois vultos da história da Igreja, não só abraçam o intelecto, como o estimam, como elemento importante na construção da escada que eleva a criatura humana em direção a Deus.

Essas coisas, entretanto, só serão possíveis quando considerarmos o mundo de modo mais compreensivo e levarmos em consideração o fato de que não é possível abarcarmos todos os seus aspectos usando uma lente apenas. Precisamos de lentes diferentes para observarmos faces diferentes deste intrigante mundo em que estamos e sobre o qual tão pouco compreendemos.

Se levarmos em consideração o mundo físico (ciência), o mundo das idéias (filosofia), o mundo da transcendência (religião), e sua incrível diversidade, logo concluiremos que estamos lavrando em campos distintos. Não seria possível utilizarmos as chaves próprias de um desses “compartimentos” para penetrarmos nos aposentos dos outros. O diálogo entre filosofia, ciência e religião deve levar em consideração a distinção entre as respectivas esferas, e não exigir que uma se renda incondicionalmente aos termos da outra.

A ciência lavra nos campos da objetividade. Para o seu labor criou- o método científico, instrumento que afere as experiências, validando-as ou não. Para se provar quaisquer postulados no campo da ciência, o filtro e crivo é o método científico. Assim, portanto, o cientista que trabalha no campo das coisas tangíveis deve lembrar que os seus instrumentos de averiguação da verdade só tem qualificação para se pronunciar enfaticamente quando a discussão tratar-se de matéria.

O filósofo que lavra no campo das idéias, da abstração do pensamento, pode transitar por todas as outras áreas na sua tentativa incansável de entender e explicar o mundo, mas deveria humildemente lembrar-se de que não dispõe de ferramentas apropriadas para penetrar e legislar com arrogância em áreas que fogem ao seu escopo, apesar de a filosofia carregar a soberba presunção de que o seu labor a tudo abarca.

A religião, por sua vez, diferentemente da ciência e da filosofia, lida com a transcendência, as alturas rarefeitas da montanha, onde ciência e filosofia juntamente só podem conjecturar à distância. Aí se demanda o uso da fé. Neste terreno, o método científico não tem autoridade para chancelar o experimento e dizer o que pode e o que não pode ser aceito. A argumentação da lógica filosófica não pode através dos seus silogismos concluir se tal raciocínio é válido ou não. Resta apenas o respeito.

Na verdade, o respeito é muitas vezes o que falta no debate entre cientistas, filósofos e religiosos. É lamentável observar tanta truculência em meio aos discursos que pretendem passar por inteligência. O prejuízo ocasionado pela falta de respeito e diálogo das partes é apresentado com pesar pelo famoso cientista Francis S. Collins:

“A crescente cacofonia de vozes antagônicas faz com que vários observadores sinceros se sintam confusos e desanimados. (…) Decepcionadas pela estridência de ambas as perspectivas muitas optam por rejeitar tanto a confiabilidade das conclusões cientificas como o valor da religião organizada, preferindo se lançar às diversas formas de pensamento anticientífico ou a alguma forma vazia de espiritualidade…”

A inteligência preconceituosa é em si um contrassenso. Se for preconceituoso não é inteligente, e se é inteligente não é preconceituoso! Collins pergunta: “Nesta era moderna de cosmologia, evolução e genoma humano, será que ainda existe a possibilidade de uma harmonia satisfatória entre as visões de mundo científica e espiritual? Respondo com um sonoro sim!”

Podemos denominar inteligência as elucubrações dos homens em seu esforço para dar sentido ao mundo e à vida? Sim, mas essa inteligência é, na maioria das vezes, muito relativa. O difícil é convencer o homem de que sua inteligência é frágil e que ele provavelmente não tem a última palavra a respeito de coisa alguma.

Luiz Leite
Escritor, conferencista, administrador de empresas e psicanalista. Preside a International Fellowship Network e pastoreia a Igreja Vida com Cristo, em Belo Horizonte(MG)

Fonte: REVISTA ECLESIA

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Publicado por em 24/09/2009 em POIMENIA

 

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