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Como Mudar Sua Igreja

22 set

Mark Dever

md001church.jpg (18K) - Uma igreja antiga

Introdução: Mudança

Mudança é necessária.  Em um mundo caído, perdido no pecado, se há uma coisa importante é que nós mudemos.  Temos que mudar nossa relação com Deus de alienação para aceitação.  Temos que mudar nossa situação diante dEle de culpado para perdoado.  Temos que mudar nosso coração, de morto para vivo.  Estou dizendo “temos que mudar”, mas em todas essas mudanças, Deus é que tem que abrir o caminho, e dar-nos um coração para trilhá-lo.

Mas a mudança não pára com a conversão.  Como cristãos nós sabemos que devemos continuar mudando conforme crescemos em Cristo.  Nosso amor a Deus e dedicação à Sua vontade deveria crescer, da mesma forma que o nosso amor ao mundo e às coisas do mundo deveriam diminuir.

No entanto, nossa necessidade de continuar mudando não é limitada a nós mesmos; também é verdade quanto àqueles ao redor de nós, e quanto a nossas igrejas, também.  Poucos sabem disso melhor que o pastor da igreja.  Qualquer igreja, com todas as suas virtudes e pontos fortes, precisa de mudança.  Os reformadores protestantes sabiam disso, e confessaram essa verdade no seu freqüentemente citado slogan: “a igreja reformada, sempre sendo reformada pela Palavra de Deus”. Isso me parece resumir a questão muito bem.

“A ferramenta mais poderosa para mudar qualquer igreja é o púlpito.”

Como mudar? Mas então surge a pergunta: “Como podemos fazer com que nossas igrejas mudem?”.  Graças a Deus por todas as formas com que nossas igrejas não escorregam para maus caminhos.  Podemos também ser gratos por todas as formas com que elas resistem a mudanças que seriam ruins.  Mas quando olhamos para aquela categoria de mudanças que nós sabemos que deveriam ocorrer – um compromisso renovado com a pregação expositiva, com o evangelismo, com uma membresia sob disciplina – como  podemos contribuir para essas reformas em nossas igrejas?   É exatamente nesse ponto que muitos ministros – incluindo alguns de vocês que estão lendo este texto agora – acabaram se afastando de muitos de sua igreja, e até mesmo alguns ministros chegaram a ser demitidos.  Fico pensando em algumas palavras que Phillip Jensen (da St. Matthias Church, em Sydney, Austrália) me disse neste último verão: “A menos que você mude algo em seu primeiro ano, você nunca vai mudar; e tudo o que você mudar em seu primeiro ano estará errado.”  (Phillip é o único pastor que eu conheço que pode fazer John Piper parecer brando!).  Precisamos levar nossas igrejas a mudar; entretanto, temos que perceber que tais mudanças serão freqüentemente difíceis.

Se nós precisamos levar nossas igrejas a fazer algo tão necessário e tão perigoso quanto mudar, então como deveríamos fazer isso?  Neste breve artigo eu desejo fazer algumas poucas sugestões em resposta a essa pergunta, e são estas três:  ensine, permaneça e ame.

I.  Ensine para mudar

Em primeiro lugar, todas as idéias na direção de qualquer igreja local deveriam vir da Bíblia.  Enquanto nos sentamos sob a pregação da Palavra, nossas necessidades e a provisão de Deus são reveladas.  Somos ensinados  a seguir os mandamentos de Deus para a Sua igreja.  A ferramenta mais poderosa para mudar qualquer igreja é o púlpito.  A pregação expositiva regular da Bíblia é o método com que o Espírito de Deus normalmente trabalha em nossos corações.

Ore para que, através da sua pregação, Deus ensine a sua igreja a mudar naquilo em que ela precisa mudar.  É impressionante quantas vezes nós, pastores, queremos consertar problemas antes de dedicarmos qualquer tempo e pensamento para explicar às pessoas quais são esses problemas – e por que eles são problemas!  E mesmo quando o fazemos, será que explicamos às pessoas nosso ponto de vista sobre por que a igreja se envolveu nesses problemas, e como nós podemos sair deles, e alguns dos benefícios que teríamos, como igreja, se tratássemos de cada um deles?

Para nós alguma coisa pode ser uma prioridade, e enxergamos isso claramente na Palavra, mas isso não significa que aqueles que não estão vendo da mesma forma são maus; eles simplesmente podem ser ignorantes. E se for assim, precisamos lembrar que nós somos os seus professores.  Muitos pastores tentaram forçar mudanças nas suas igrejas – freqüentemente apelando para a sua posição de liderança – quando deveriam ter tentado informar melhor as pessoas.  Irmãos, nós deveríamos alimentar as ovelhas que nos foram confiadas, e não bater nelas.  A maioria das mudanças que precisam ocorrer em nossas igrejas não pode ser forçada nem ordenada.  Nós temos que ensinar a congregação que Deus confiou ao nosso cuidado.  Temos que convencê-los.

Mesmo que a mudança que você pretende introduzir seja correta, ainda fica a pergunta adicional quanto a definir se é o tempo certo para aquela mudança.  E mesmo que você consiga uma determinada mudança sem ser mandado embora, que preço será exigido do corpo como um todo naquele ponto da vida da congregação?  Estar certo em algum ponto não é uma “carta branca” para ação imediata.

Isso me traz à minha segunda observação do que nós precisamos fazer para conduzir nossas igrejas à mudança.

II.  Permaneça para mudar

Precisamos ficar em uma igreja tempo o bastante para ensinar.  Temos que ficar o tempo suficiente para ver a igreja entender e abraçar as mudanças necessárias.  Na realidade, deveríamos desejar ver a noiva de Cristo tão bem edificada que não veremos simplesmente mudanças individuais, mas o desenvolvimento de toda uma cultura.  Nós deveríamos trabalhar na congregação para ver uma cultura de devoção a Cristo tipificando a igreja.  Tão importante é essa vontade de se plantar em um local, que eu me pergunto se nós não deveríamos incluir pastorados longos como uma décima marca de uma igreja saudável (além das nove sobre as quais eu já escrevi).

Uma pesquisa, patrocinada pela Federação dos Consumidores da América e pela empresa de serviços financeiros Primerica, revelou que 28% dos americanos acredita que a sua melhor chance de construir riqueza a longo prazo é jogar na loteria.  Entre famílias com rendas anuais de US$35.000 ou menos, 40% puseram sua fé no jogo.  Menos que um terço dos entrevistados disse que US$25 semanais investidos durante 40 anos a uma taxa de 7% de rendimento anual chegaria a mais de US$150.000.  Na verdade, chegaria a US$286.640.  (publicado na revista World, 20 Nov de 1999, pág. 14).  Em nossa cultura, nós subestimamos o poder da longevidade, da fidelidade repetida.

Eu me lembro de uma ocasião, há vários anos atrás, em que falei com um pastor imediatamente após ter escutado uma mãe que expressava o desespero dela quanto à aparente futilidade do círculo infinito das mesmas tarefas repetitivas.  O pastor, enquanto olhava melancolicamente para fora da janela, disse-me exatamente a mesma coisa!  Mas ambos precisavam ser encorajados a perceber que Deus trabalha com o passar do tempo, que caracteres são formados lentamente, e que tal fidelidade é um belo reflexo do cuidado consistente de Deus para conosco.

Pastorados longos ajudam o pastor também.  Eles ajudam a eliminar aquele conhecido fenômeno do pastor simplesmente aparecer com uma caixa de truques (ou um barril de sermões), fazendo seus truques durante 2 ou 3 anos, e então mudando-se para outro lugar.  Geralmente, quanto mais tempo ficamos em um lugar, mais reais precisamos ser – e isso é bom para nossas próprias almas, e para aqueles a quem servimos.

Freqüentemente, com o passar do tempo, a visão de uma congregação começa a mudar de Deus e Sua glória para a igreja e sua própria satisfação.

Freqüentemente, com o passar do tempo, a visão de uma congregação começa a mudar de Deus e Sua glória para a igreja e sua própria satisfação.  Precisamos trabalhar consistentemente para que a igreja volte a focalizar em Deus e Suas prioridades através do ensino diligente, contínuo e repetitivo da Palavra.   Devemos glorificar a Deus através da edificação da igreja e da evangelização do mundo, e não simplesmente fazendo tudo ao nosso alcance para manter o rol de membros feliz.  Com quase qualquer grupo de pessoas composto de várias dezenas ou ainda maior, alguns resistirão às mudanças que são necessárias.  Nesse ponto, o grupo tem uma decisão crucial a tomar – é mais importante que nós encontremos alguma forma de continuar incluindo todas as pessoas que já estão aqui, ou é mais importante que nós (como um grupo)  mudemos para uma determinada direção, até mesmo se tal decisão for tomada às custas de certo número partindo porque sente que não pode aceitar aquela mudança?  Esses pontos difíceis na vida de uma congregação são melhor tratados lenta, deliberada e abertamente e com muito ensino paciente. Lembrem-se da grande recomendação de Paulo a Timóteo:  “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.”, (II Tim. 4:2).  Seu ensino paciente pode ajudar sua igreja a mover-se do egocentrismo para uma abnegação teocêntrica em missões, evangelismo e discipulado.  Tal paciência normalmente exige que você permaneça na igreja por um bom tempo.

A idéia de “compromisso com um grupo” está desaparecendo no local de trabalho e até mesmo no lar.  O modelo da Geração X* não é uma escada corporativa pré-fabricada, com caminhos cuidadosamente limitados, e sim o mosaico da grande rede mundial, com alternativas e opções que parecem se estender ao infinito.  Nossa geração está sendo ensinada a viver experiências variadas, entendendo que cada uma enriquece a outra.  Permanecer por muitos anos em uma companhia parece algo, na melhor hipótese, sem imaginação, e na pior hipótese, o reflexo de um debilitante medo daquilo que é novo.

Como pastor, seu maior poder para ajudar a mudar sua congregação não vem da sua personalidade forte, mas sim de seus meses e anos de ensino fiel e paciente.

Nós, pastores, precisamos estar dispostos a estabelecer um modelo diferente em nossas congregações. Precisamos ensinar que compromisso é algo bom, tanto em relação a nossos casamentos e famílias, nossos amigos e nossa fé, quanto à nossa igreja e nossos vizinhos.  É à luz de tais compromissos de longo-prazo (pensando em termos não de meses, mas de décadas) que podemos ajudar uma igreja a encontrar suas verdadeiras prioridades e institucionalizá-las novamente.  Para esse fim nós pastores deveríamos escolher nossas batalhas sabiamente.  Deveríamos estabelecer cuidadosamente a prioridade de cada mudança necessária em relação às outras.  Deveríamos considerar qual das várias mudanças que parecem necessárias é a mais necessária neste momento. Deveríamos considerar em qual ordem natural essas mudanças deveriam ocorrer.  Será que devemos avaliar primeiro como recebemos novos membros, ou como exercemos a disciplina na igreja?  Abordamos primeiro como melhorar a freqüência na Escola dominical, ou o que fazer para melhorar a própria Escola Dominical?  Todas essas decisões são importantes para a igreja, e exigem paciência e um compromisso de longo-prazo do pastor em estar disposto a pensar de modo maduro, no longo alcance.

Como pastor, seu maior poder para ajudar a mudar sua congregação não vem da sua personalidade forte, mas sim de seus meses e anos de ensino fiel e paciente.  Mudanças que não acontecem este ano, podem vir a ocorrer no ano que vem.  E enquanto isso, o ensino que você passa, e até mesmo os resultados das mudanças que ainda não aconteceram, podem muito bem estar abrindo os olhos e mudando os corações da congregação.  Sob a influência de um bom ensino e de prioridades adequadas na pregação, programação e liderança do pastor, algumas mudanças podem simplesmente acontecer naturalmente.

Peter Brierley, em um livro recente, escreveu que “Vários estudos indicaram que, dentro de limites, quanto maior o tempo que um ministro fica com sua igreja, maior a probabilidade de crescimento.  Paul Beasley-Murray, atual Pastor Sênior de uma grande igreja batista em Essex, em um estudo de 1981 entre as igrejas batistas da Inglaterra, descobriu que as igrejas que cresciam estavam invariavelmente ligadas a ministros que tinham servido ali  entre cinco e quinze anos, sendo que algumas só cresceram depois de mais de vinte e cinco anos de serviço!  A tese do espaço de tempo entre cinco e quinze anos é confirmada em outros estudos fora das igrejas batistas”, (Steps to the Future [2000], pág. 28).

Amigos, tudo isso que tenho dito não é um conselho para que você fique em um lugar por tanto tempo a ponto de desgastar-se com todo mundo; na verdade é um conselho para que você fique em um lugar tempo bastante para que possa ensiná-los.  A chave para a mudança é ficar numa igreja tempo suficiente para ensinar a congregação.  Se você não planeja ficar nesses termos, então tenha muito cuidado antes de começar algo que o próximo sujeito vai ter que terminar.  Precavenha-se de deixar a congregação endurecida contra você ou contra seu sucessor, ou até mesmo contra a própria mudança.

Lembro-me de quando eu era um jovem seminarista tomando como modelo três célebres clérigos anglicanos de Cambridge que tiveram ministérios expositivos em locais chave, e que estenderam-se por muitos anos. Richard Sibbes (em Cambridge e Londres durante 30 anos), Charles Simeon (em Cambridge durante mais de 50 anos), e John Stott (em Londres durante mais de 50 anos).  Todos esses três homens, pela graça de Deus, edificaram as igrejas em que serviram e até afetaram as gerações vindouras de ministros pela sua longa fidelidade.

Conclusão: Ame para mudar

Conta-se que Abraham Lincoln disse que a melhor posição para a negociação é “a maior bolsa e o canhão mais longo”.   O que estou sugerindo aqui é que, para o pastor, o melhor modo de ajudar a obter uma mudança na igreja é prover o mais consistente, mais convincente, ensino bíblico durante o maior tempo possível.

Mas mesmo com ensino de qualidade, pacientemente aplicado, alguma coisa ainda pode estar faltando.  Em última análise, para buscar as mudanças certas, e ensinar sobre elas, e permanecer com a congregação de forma a poder fazê-lo pacientemente, você precisa amar.  Você tem que amar a Deus, e você tem que amar o Seu povo, sobre quem Ele o colocou, para servir e cuidar dele.  Do amor virá o cuidado genuíno por Deus e Sua Palavra.  Do amor vem a humildade.  Clemente de Roma disse que o “Cristo pertence ao humilde de coração, e não àqueles que exaltam a si mesmos sobre o Seu rebanho”.  E do amor virá o cuidado paciente que vai sempre de novo fazer com que a congregação se volte para o longo prazo, para o horizonte, para a Palavra de Deus, em todas as suas decisões.

Nada disso é dito com a intenção de afirmar que pastorados curtos ou ser mandado embora de uma igreja são, por si só, sinais de fracasso do ministro.  Certamente existem pastorados curtos que foram fiéis.

Os cortesãos do rei Henrique IV da França, estavam um dia elogiando-o quanto a força da sua constituição e falaram-lhe que ele poderia viver até os oitenta anos de idade.  Ele respondeu: “O número de nossos dias é contado.  Eu freqüentemente orei a Deus por graça, mas nunca por uma vida longa.  Um homem que viveu bem, sempre viveu tempo o bastante, não importando quão cedo ele venha a morrer”.

Certamente Jonathan Edwards não era um pastor menos fiel simplesmente porque sua congregação o despediu.  Alguns de nós tiveram pastorados curtos e fiéis.  Mas essa não é minha preocupação aqui.  Com essa fala curta, eu simplesmente pretendi elevar em suas mentes algum pensamento de como vocês podem, ensinando, permanecendo e amando, guiar suas congregações em uma mudança bíblica.

Que Deus ajude a todos nós a cuidar do Seu povo a fim de que Sua Igreja seja edificada e Seu nome seja glorificado.


*N.Tradutor: Nos EUA refere-se à geração nascida entre 1961 e 1981.

Fonte: Extraído do site 9Marks


Tradução: centurio

Fonte: BOM CAMINHO

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Publicado por em 22/09/2009 em POIMENIA

 

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