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Saudades…

08 set

Leonardo Mendes

Que saudades….

Fui criado em berço cristão, minha mãe com muita luta, muito esforço, trabalhava dia e noite para criar, sustentar, eu e minha irmã. Abandonados por meu pai, um pastor da Igreja Batista, mamãe lutava, lutava não somente para superar as dificuldades financeiras de uma mãe divorciada com duas crianças pequenas, mas também para em seu raro tempo vago, nos falar um pouco de um livro famoso, isto… este mesmo… o livro da capa preta, assim fomos criados, lendo as lindas palavras das escrituras, e vivenciando muralhas caindo frente aquela tão linda e jovem senhora.

Lutas, experiências, batalhas que nos fizeram aprender sobre um Deus verdadeiro, aprendemos a amar a Bíblia, a ter sede por estudos bíblicos, a esperar ansiosamente pelas férias, e nelas desfrutarmos das sempre tão esperadas EBF’s. Aprendemos a no domingo acordar bem cedinho, e assim como um filho que visita seus pais no famoso almoço de domingo, irmos a casa do Senhor! como era bom ir à igreja.

Com o passar dos anos, fui crescendo, passando pela adolescência, juventude, fase de decisões, fase de escolher um curso superior, finalmente pude ir ao seminário, entender mais sobre a bíblia, sobre a teologia, conhecer mais a fundo, através da aplicação da tão preciosa hermenêutica os maravilhosos textos das escrituras.  É … assim foi minha história, graças ao Senhor, aquele menininho fadado a desvios psicológicos de uma família destruída, aprendeu a amar e estudar um livro interminável, não escrito por homens, a palavra de Deus.

Descobri que este é um livro incomparável, um livro para ser conhecido mundialmente, para todos desfrutarem, todavia, infelizmente, cada dia mais, vemos menos portas abertas com a finalidade da divulgação deste tão precioso texto, como seria bom se tivéssemos mais igrejas pregando a Bíblia em nossas cidades, seria realmente uma benção, viveríamos a realidade da igreja primitiva descrita em Atos.

Sinceramente, não entendo porque, frente a tantas maravilhas bíblicas, tão poucas pessoas tem se preocupado com a sua plena divulgação. Não entendo porque, frente a um mundo regado por más notícias, aqueles que possuem a única boa notícia, o Evangelho das boas novas, recusam-se a compartilhá-la, um pensamento involuntário me vem à mente…. será que realmente todos estes a possuem? Realmente não posso culpá-los, afinal, ninguém pode dar o que não tem.

Apesar da minha pouca idade, ao ler os textos bíblicos, os testemunhos dos apóstolos, dos primeiros irmãos, até mesmo a história dos combatentes da famosa Reforma protestante, viajo no tempo, imagino como deveria ser delicioso vivenciar aqueles momentos ali relatados, esta minha viajem, aparente utopia, me faz contemplar aqueles momentos de uma forma tão real e concreta, que acabo por sentir saudades daquele tempo…

Saudades…. saudades de quando a igreja, a Ekklesia  (Tirados para fora) era feita de homens e mulheres que haviam saído do sistema mundano, e agora caminhavam na mão certa, indo contra a multidão que trafega perigosamente pela contra mão. Aqueles que formavam a Ekklesia eram chamados de cristãos, isto mesmo, “pequenos cristos”,  chamados assim pois seu caminhar era tão irretocável e honesto, que fazia lembrar os tempos em que o próprio Cristo passeava pela Terra.

Ahh, saudades, que saudades! Saudades de quando templos majestosos não eram feitos de excelentes materiais de alvenaria, em terrenos centrais adquiridos por pequenas fortunas, não, esses não são bons, estes são baratos demais, bons mesmo são aqueles templos que foram comprados pelo próprio Deus, estes foram caros, só ele pode pagar, o preço foi alto, templos não feitos por mãos humanas, não imóveis, templos de carne e osso, sim… feitos do pó da terra, mas valiosíssimos.

Saudades de quando muito mais importante que um terno fino da Pierre Cardin, gravata e sapatos engraxados que pisam sobre o símbolo da Mr. Cat, era a roupa interior, talvez ela tenha perdido a importância por também ser muito cara, não ser achada em qualquer “shoppingzinho” de segunda, na verdade ela nem se pode comprar, mas era, esta era uma roupa bonita e apresentável de verdade.

Saudades de quando técnica vocal era somente acessório que amparava o perfeito louvor que na verdade era produzido pelas “cordas vocais” do coração… de quando Deus, criador de todo universo aparentemente não se importava se o instrumento que acompanha o verdadeiro adorador, era uma Fender, uma Pearl, um Roland, ou se simplesmente foi uma harpa artesanal, feita pelo pastorzinho ruivo que acaba virando rei.

Saudades de quando o dom supremo era o amor, isto… este mesmo, que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta, é… este era o melhor dom, este aparentemente ninguém mais quer, talvez porque sua condição do “melhor é dar do que receber” seja muito pesada para os dias atuais, um mundo de interesses individualistas, é melhor ficar com o dom de línguas, fácil de imitar, difícil de questionar e vago em suas obras.

Saudades de quando o pecador arrependido era imediatamente perdoado, de quando castigos humanos eram desnecessários frente a um Deus que é a própria justiça, de quando penitencias só existiam na igreja vindo das mãos dos perseguidores do evangelho, talvez até isto ainda seja bem parecido, todavia, o problema é os algozes hoje freqüentem nossos púlpitos. Parece-me que o “aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra”, e o “eu não te condeno, eu te perdôo, vá e não peques mais” foi retirado de algumas traduções modernas.

Saudades de quando a Teologia era usada para defender a Bíblia, e não para defender homens que na sua incredulidade tentam explicar mudanças em um Deus imutável. De quando mais sábios foram os cristãos de Beréia, que não aceitaram a pregação paulina de cara, questionando e confirmando se tinha coerência a mensagem do Apóstolo. De quando um freqüentador assíduo da Escola Bíblica não era um fanático incoerente, mas sim alguém que alegremente desfrutava de momentos conquistados por nosso irmão Lutero em sua reforma protestante. Será que é melhor não pensar? Será que é melhor não conhecer? Será que o evangelho de pensamentos formados não é mais prático? Eu? Eu tenho saudades, sou pastor, mas prefiro um pensante questionador em minha platéia, que cem ignorantes interessados em pensamentos mastigados, o questionador me faz crescer, me faz pensar, me faz questionar…

Saudades…. saudades do tempo em que nova revelação só existia quando aquela amiga e  companheira Bíblia de muitos anos se despedaçava de tanto ser usada e tínhamos que comprar outra novinha em folha porém imutável em seu conteúdo.

Que saudade do puro evangelho… do milagre literal… de quando a Bíblia era a única e inquestionável verdade, de quando cristão sábio não era o ativista (Marta), mas sim aquele que sentava calmamente para ouvir ao Senhor (Maria), de quando oferta boa era composta pelas poucas moedas e coração grato da pobre viúva, de quando programação de sucesso não era aquela que lotava, mas sim aquela onde Deus estava presente (“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” Mt 18:20)…

Saudades de quando a pregação do evangelho era simples, de quando a homilética colocaria o sermão cristão em somente três pontos… Jesus é o Messias, Jesus Ressuscitou, Jesus voltará… simples assim, este era o sermão da igreja primitiva, este era o sermão de Pedro, um simples homem, pescador, inculto, mas seu simples discurso levava milhares a Cristo, coisa que nós com graduações, pós graduações, mestrados, doutorados, não conseguimos fazer.

Bem… nem tudo está perdido, algumas coisas não mudaram…. a salvação pela graça por exemplo, esta para uma maioria aparentemente não mudou, mas também, esta seria um absurdo se mudássemos, afinal, em time que está ganhando não se mexe, basta não explicar a fundo, ela não nos causa problemas, muito pelo contrário, ela nos soluciona alguns, se não há justificativa… não tem problemas…. estamos “na graça irmão”. A graça tem sido o único fio que ainda nos tem segurado, é só pela graça mesmo, pela graça somos salvos, se mudarem isto……..

Que o Senhor te abençoe, que o Senhor te abra os olhos, te faça enxergar, entender, vivenciar e lutar pelas verdades bíblicas.

Fonte: BLOG DO PASTOR

 
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Publicado por em 08/09/2009 em POIMENIA

 

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