RSS

Tudo o que tens

06 set

Ananias acordou revigorado em um domingo preguiçoso, o que não era difícil, dada sua cama ampla e confortável, suficiente para quatro seres humanos. Tomou um café respeitável, digno de três seres humanos, e se sentou à frente de seu computador, com capacidade de processamento suficiente para vinte e dois seres humanos normais.

Tinha trocado todas as assinaturas de jornais por seu leitor de feeds. As enormes edições de domingo não enchiam mais sua caixa de correio, e ele não tinha que buscá-las em manhãs frias antes que algum sem escrúpulos as tomasse para si. A principal razão que apontava em conversas informais e em seu blog, contudo, é que estava contribuindo para a permanência das florestas, já que estava fazendo sua parte na redução do uso do papel.

Fez campanha contra o corte das árvores do canteiro central de uma avenida de seu bairro. A campanha até fez sentido, já que aquelas são as únicas árvores que ele conhece. E, considerando que são árvores próximas e em sequência, lar de pequenos animais e outras plantas, formando um reduzido mas completo ecossistema, são a única floresta real com a qual Ananias já teve contato.

De volta aos feeds, antes que os feitos desse homem tomem toda a história. Ananias já tinha lido sites de notícias relevantes e de piadas sem sentido. Informado e divertido, partiu para as leituras profundas, como chamava. Passou os olhos sobre algumas críticas a modelos e sistemas vigentes, colhendo argumentos para suas próximas postagens no blog e no Twitter. Viu uma indicação de um vídeo que parecia interessante e clicou no play para ver se realmente o era.

Assistiu emocionado a cada segundo, e foi às lágrimas na parte final. Pelo início já se sabia o final, mas mesmo assim chorou. Ver crianças tendo como sustento principal aquilo que gente despreocupada descartou foi impactante para ele. Copiou o endereço do vídeo e indicou várias vezes no Twitter, acompanhado de comentários como “lembre-se disso ao reclamar do pão de ontem no fast food” ou “o que os cristãos estão fazendo diante dessa realidade diária?” e ainda “Deus dá dinheiro aos seus servos mas esquece dessas pessoas?”.

Reclinou-se em sua confortável cadeira de trabalho e começou a pensar na postagem do blog sobre o assunto. Foi quando ouviu, ou pensou ter ouvido, como um ruído quase imperceptível, mais baixo que o som que o condicionador de ar fazia, dizendo algo que já conhecia, mas raramente lembrava: “vende tudo que tens e dá aos pobres”.

Após se recuperar dos arrepios e sensações fantasmagóricas que sentia, arrumou-se na cadeira e pensou. “Uma traquinagem da minha mente”, considerou. Deu um leve sorriso, como costumam fazer aqueles que subestimam e zombam do poder do próprio terror de momentos antes. Começou a ponderar a frase que imaginou sussurrada em seu ouvido.

“É impossível vender tudo. É necessário o básico pra viver. E se eu não tivesse nada, como ajudaria as pessoas?”. Racionalizada esta parte, abriu um conhecido site de ação social e fez uma contribuição com o cartão de crédito através do PayPal. “E como eu saberia de toda a situação dessas pessoas se eu vendesse o computador? Eu não teria visto os vídeos que vi, não seria informado como sou do mundo à minha volta. É uma ferramenta para o bem. É verdade, a coisa não é tão absoluta assim. Temos que vender aquilo que vai realmente ajudar os outros, e não me atrapalhar a ajudar os outros”.

Satisfeito com essa racionalização final, pôs na agenda vender o velho videocassete a uma loja de eletrônicos usados, alguns livros técnicos antigos ao sebo e em um ferro velho as rodas recém trocadas por outras aro 19. “O dinheiro deve ser usado em assistência aos desfavorecidos”, sublinhou enfaticamente em suas anotações. Tirada a caneta do papel, novamente sentiu a sensação de momentos antes. “Como é difícil um rico entrar no Reino dos Céus”, ouviu, ou pensou ter ouvido.

Mais uma vez, pôs-se a racionalizar. “Não sou rico. Pago um terço da minha renda em impostos e ainda plano de saúde. Falta dois anos ainda para quitar o débito do meu carro, e comprei esse computador em doze vezes no cartão. Não, não sou rico!”. Mais uma vez, a cogitação o deixou satisfeito. “Não há absolutos, amigos. Pensem antes e verá que as coisas são mais relativas do que imaginam”, escreveu em seu Twitter pouco antes de ligar seu home theater para assistir algo. Chovia, e o sinal de satélite estava ruim. “Nada funciona. Porcaria”, reclamou antes de colocar um DVD para assistir um filme. Dormiu o resto da tarde, enquanto suas mensagens causavam discussões no Twitter, e seus colegas louvavam no íntimo o seu engajamento.

Fonte: BICHO DE RONDONIA

Anúncios
 
Comentários desativados em Tudo o que tens

Publicado por em 06/09/2009 em POIMENIA

 

Tags: , , ,

Os comentários estão desativados.

 
%d blogueiros gostam disto: