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Preconceito, o mais antigo pecado

03 set

Imagem meramente ilustrativa

[foto meramente ilustrativa]

Severino tinha muitos planos. Das dezessete às duas horas da manhã era frentista em um posto de gasolina suburbano. Das oito ao meio dia, fazia supletivo porque sonhava em melhorar de vida. Brincalhão, dizia que ser frentista era apenas o início de seu império. Depois se tornaria o dono dos donos de postos.  Mas o que povoava seus sonhos cotidianamente era trazer mulher e filhos do interior do Nordeste. Ah saudade! Dizia sempre ao olhar as fotografias amarrotadas na carteira. E era tanto o ardor no peito, e tanta a angústia da incerteza que marejavam seus olhos sertanejos.

Já passava das duas da manhã. Cansado e com frio, depois de seu turno, estava sentado na indecisão buscando coragem para a longa caminhada até sua casa. Sabia que àquelas horas ninguém deveria andar sozinho, mas estava economizando o vale-transporte. Talvez fosse melhor dormir no posto, mas assim chegaria atrasado na aula. Olhou para a avenida e notou que o asfalto brilhava devido à cerração. A bruma leve emprestava às ruas aquele mesmo ar de mistério que lia nos livros de bolso – sua outra paixão.

Severino respirou fundo, espalmou as mãos nas coxas como quem sinaliza ter saído dos muros da indecisão e começou sua caminhada para casa. Mãos relaxadas nos bolsos do agasalho, caminhava com uma cadência que chegava a ser ginga. O barulho surdo e monótono de suas pisadas interrompia o silêncio da noite. De repente uma sensação de medo. Em um reflexo olhou para trás e viu três homens. Pelo sim e pelo não, apressou seu ritmo e percebeu que também os rapazes. Eram bonitos e trajavam roupas vistosas. Tinham músculos curtidos e, estranhamente, todos de cabeça raspada. A boca secou enquanto a mente buscava entender o que desejavam. Ele nunca ouvira falar dos Skinheads.

O resto da estória está na vida real, nos jornais, nos boletins de ocorrência e nos laudos médicos do IML de algumas cidades do Brasil e do mundo. Porto Alegre, Brasília, São Paulo, dentre tantas outras assistem ao avivamento do Nazismo. Perseguem judeus, nordestinos, negros, índios e homossexuais. Engaja jovens bonitos e de famílias abastadas para perpetuar um dos mais antigos sentimentos da humanidade: o preconceito.

O preconceito é a regra.

A história do nazismo é a mesma história de preconceito que sempre habitou a alma humana. Teve como tapete a Teoria de Darwin, quando legitimou a idéia de que haveriam raças humanas mais evoluídas que outras.

O caso nazista ganhou notoriedade tornando-se um ícone. Imaginamos inocentemente que tenha sido uma exceção, mas não foi. O preconceito é a regra. Mudam as ideologias e os argumentos, mas o pecado continua o mesmo. É uma infecção generalizada na sociedade humana, seja nas ideologias, nas ciências e, pasme, no mundo religioso.

Não foi à toa que Nietzsche atacou com todas as suas forças, as ideologias, tanto quanto as religiões, porque lhe pareciam vazias em suas promessas e soavam como uma licença para que continuássemos egoístas, acobertados por uma boa causa. Em parte, concordo, porque vejo que a sórdida busca de domínio político ganhou na idade média o nome religioso de “Cruzadas”. A busca pela fortuna, fama e glamour ganhou o nome de pesquisa científica – Os bastidores da ciência que o digam – Alguns laboratórios monopolizam o conhecimento, fabricam fortunas enquanto condenam à morte os milhares que não podem comprar sua tecnologia. Em razão disso, doenças como Aids proliferam em escala progressiva nos países da África e América Latina. É um tratamento caro demais e muitos morrem à míngua.

De igual modo a sede pelo poder ganhou o nome de ideologia e tantas outras vezes, de religião. Preconceito é figura quase onipresente desde os primeiros dias da história, até hoje.

Um jantar emblemático faz a conexão entre o século primeiro e o vinte e um, mostrando que o preconceito é regra e não exceção.

Estava Jesus jantando com os fariseus na casa de um muito conhecido, chamado Simão. De repente entrou na sala uma prostituta. Todos ficaram em silêncio. Muitos se perguntaram: “O que esta mulher está fazendo aqui? ”

Qual o problema em estar ali, se buscava exatamente a mesma coisa que todos os outros? No entanto, quando a religião se distancia de Deus também se distancia do próximo. A mente religiosa é incapaz de ver a necessidade do próximo. Age sempre preventivamente. Assim, ela não era bem-vinda ao mundo da religião dos fariseus.

Para piorar a situação, ela jogou- se aos pés de um homem santo e ele, gentilmente, acatou seu toque e, pior, pareceu ter gostado de ser tocado por ela. Pelo menos é o que percebo em suas palavras.

Estava formado o escândalo. Era exatamente assim que tinha de ser porque uma das principais características de Jesus foi sua vida livre de preconceitos e pronta para amar os odiáveis. Todo o seu ensino e prática tiveram como ponto de partida a inclusão e o perdão – Perdão, em última análise é também uma forma de inclusão. A verdade é que ninguém consegue amar o próximo guardando preconceito na alma. Em razão disso Ele nos aconselha a não resistir ao perverso, a dar a outra face, caso sejamos feridos, a andar uma segunda milha voluntariamente e, finalmente, a amar os odiáveis (Mt 5: 38-45).

Por quê? A resposta vem em seguida. Porque Deus é exatamente assim. Ele fez o sol nascer sobre todos e assim também a chuva.

Eis a chave para a compreensão do amor de Deus e de sua graça. O sol, que beneficia a todos sem distinção ou preconceitos.

O preconceito é a atitude cega que nos impede de ver tanto os outros quanto a nós mesmos.

Simão ficou escandalizado com Jesus (vs 39). Duvidou de sua honestidade e status profético. Imaginou que se Jesus – o mais santo de todos – deixou-se tocar por uma prostituta significava que não sabia de quem se tratava. Logo, não seria um profeta de Deus. Não compreendia que o que conceito de santidade é exatamente o oposto. Quanto mais santo alguém é, mais amará e tocará os pecadores.

Sua atitude preconceituosa foi e é inaceitável porque ele mesmo fora vítima de preconceito. As passagens paralelas nos evangelhos identificam este Simão como sendo um leproso curado por Jesus (Mt 26: 6, 7 ; Mc 14:3,4). Portanto, sabia o que significa ser rejeitado, humilhado e desonrado. Sabia o significado do infortúnio e do estigma. No primeiro século, aos olhos judeus, todo leproso era considerado impuro, não porque estava doente, mas por razões “espirituais”. Todo leproso era um maldito, um desvalido, um abandonado por Deus, uma espécie de retrato do pecado. Portanto para Simão, o fariseu, cujo maior orgulho era o de pertencer ao time da “Reta Doutrina”, ser leproso representava um infortúnio constrangedor.

Essa fora sua vida até antes de ser curado por Jesus. Mas o preconceito é cego e por isso não conseguiu enxergar na desgraça moral da pobre mulher um eco de sua própria desgraça física – que, aos olhos do primeiro século, também era moral.

O preconceito cega nossa alma porque é fruto do medo. É uma rejeição preventiva. Agimos assim quando nos chocamos e não sabemos o que fazer.

Jesus e os apóstolos pregaram um Cristianismo livre de preconceitos.

Você não achará esta palavra na bíblia porque pertence ao nosso tempo, mas seu sentido está plenamente embutido no texto sagrado de maneira até mais forte.

Todo o ensino cristão tem como marco teórico a graça de Deus que nivela todos os seres humanos igualmente. O Deus que se recusa a tratar-nos segundo nosso merecer também gostaria de ver seus filhos agindo graciosamente com os outros.  As insistentes associações que João fez, entre a incapacidade de amar a Deus, a quem não vemos, enquanto não conseguirmos amar o próximo, a quem vemos, mostram a relevância dos outros – indistintamente de quem sejam – na experiência cristã.

O fato de Jesus sempre colocar como mocinho em suas parábolas aqueles que normalmente seriam os vilões na cultura popular, é outro indício de uma religião inclusiva e livre de preconceitos. E mais, as constantes proibições de julgamento ao próximo revelam a verdadeira e graciosa face do Cristianismo. Há uma lista relevante. Só para citar algumas ocorrências, em Mt 7:1,2 somos proibidos de julgar os outros. Em Rm 2:1 somos indesculpáveis se julgarmos, pois temos o mesmo potencial para os mesmos pecados.  Rm 14:4 pergunta quem somos nós para apontar o dedo ao próximo. 1Co 4:5 nos lembra que nosso conhecimento é parcial e que só Deus tem conhecimento completo de todas as situações. Tg 4:12 diz que só Deus é juiz.

Estas conceituações bíblicas de julgamento são muito próximas da definição que o Aurélio dá sobre preconceito:

“conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior  ponderação ou conhecimento dos fatos; idéia preconcebida.”

Juízo é a palavra bíblica que cabe perfeitamente no conceito moderno de preconceito porque implica igualmente em “pré-conceituar” uma pessoa; dar antecipadamente e por razões superficiais, o resultado sobre alguém sem ao menos lhe conhecer o coração. É uma opinião baseada geralmente apenas na cor, sexo, posição social, religião, profissão, etc.

O Não-preconceito é uma visão de vida que deveria ser a visão da igreja.

Mas não é. Ser livre de preconceitos não é o mesmo que ser libertino ou devasso e nem aplaudir a vida de pecado dos outros. Somos livres do preconceito quando aprendemos que todos os seres humanos receberam igualmente a graça de Deus.  Paulo disse que Deus nivelou por baixo. Colocou todos os seres humanos na mesma classe (Rm 11: 31,32). Então por que eu me julgaria melhor que o pedófilo, adúltero ou drogado quando potencialmente tenho as mesmas inclinações dentro de mim? Ora, miserável homem que sou. O que faltou para me tornar como um deles foi a infeliz oportunidade; a infernal porta aberta para o caminho do descaminho.

O que nos livrará do corpo desta morte? Somente a graça de Deus que a todos deseja alcançar e transformar. Aliás, em nosso vocabulário religioso, a palavra alcançar tem o mesmo sentido que evangelizar. Só que esvaziamos seu significado quando esquecemos que alcançar é o mesmo que incluir. Nosso papel como igreja não é condenar. O judiciário já faz esta tarefa. Nossa missão é incluir para dar a oportunidade de transformação aos que assim desejarem. Todavia, a maioria das igrejas está de portas fechadas para permitir que a Graça de Deus extravase. Enquanto isso os Severinos continuarão sendo transformados em vítimas ou algozes nas grandes cidades do mundo.

Domingos Rodrigues Alves.

Fonte: DOMINGOS ALVES

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Publicado por em 03/09/2009 em POIMENIA

 

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