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A ecoteologia da libertação

31 ago

IHU-Unisinos
sexta-feira, 24 de julho de 2009

A Teologia da Libertação, que sempre escutou o grito dos oprimidos, tem que escutar agora o grito da terra, das águas, da natureza, disse o teólogo brasileiro Leonardo Boff em entrevista ao Instituto Humanitas (IHU), da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS).

Leonardo Boff participa do 12º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), reunido em Porto Velho, Rondônia, de 21 a 25 de julho. A humanidade, disse Boff, “tem que descobrir outro caminho de produção, de consumo, com outros valores de convivência, porque, senão, vamos ao encontro do pior”.

Um dos pensadores da Teologia da Libertação, Leonardo Boff é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ele escreveu mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística. Leia, a seguir, a entrevista que concedeu ao IHU.

IHU On-Line Qual a visão da Amazônia que está sendo passada neste 12º Encontro Intereclesial das CEBs? Qual o principal grito que se escuta?

Leonardo Boff – A visão que estão passando é de perplexidade e de esperança. Perplexidade por causa dos muitos gritos que vêm em função das mineradoras, do agronegócio, das hidrelétricas, das grandes estradas que estão sendo abertas. Com isso, o povo se sente meio impotente diante do grande capital mundial, unido com o capital nacional.

Por outro lado, há uma esperança. As populações ribeirinhas, as comunidades de base, junto com outros grupos, resistem, fechando as estradas – como fizeram com a hidrelétrica de Jirau – e obrigando as mineradoras a negociar. Praticamente todas as igrejas da Amazônia, não só a católica, mas a luterana e as outras, estão apoiando a resistência e a tomada de consciência sob a responsabilidade de preservar a Amazônia. A vocação da região não é o agronegócio ou a criação de gado, mas é se manter de pé, para o equilíbrio climático de toda a humanidade.

IHU On-Line – Qual a contribuição das CEBs em relação ao tema da ecologia? Qual é sua missão nesse sentido?

Leonardo Boff – Naquilo que pude captar até o momento neste encontro, apareceu muito a ideia de que as Comunidades Eclesiais de Base estão se transformando em comunidades ecológicas de base. Elas incorporam a consciência ecológica, defendem as florestas, são contra o desmatamento, cuidam das nascentes e das águas, procuram evitar os transgênicos, resistem e criticam. É a mesma postura da irmã. Dorothy Stang. Eles estão nesse tipo de linha.

Para mim, está sendo uma grande surpresa. Eu não sabia que eles já tinham uma consciência ecológica desenvolvida do problema. Embora pequenos, podem produzir efeitos significativos. E isso é muito importante, pois é simplesmente avassaladora a presença do capital, com sua lógica de acumulação de riqueza, sacrificando as populações originárias e os pequenos camponeses.

IHU On-Line – Como o senhor tem sentido o evento até então? Como caracteriza a força que emerge do povo participante?

Leonardo Boff – O interessante é que, apesar das lutas e do sofrimento, há um entusiasmo fantástico, uma alegria, uma capacidade de celebração e uma esperança da pequena semente. Somos poucos, mas somos a energia que a semente tem dentro de si: que é a árvore, com o tronco, as folhas, flores e frutos.

Nós vamos lutar, porque a causa é verdadeira, contamos com Deus e com a natureza, que está do nosso lado. É preciso resistir e obrigar os que não pensam como nós a mudar as estratégias, para que não sejam tão destruidoras. E se nós não podemos mudar os projetos, podemos mudar a maneira como são feitos.

IHU On-Line – Como os problemas conjunturais de Rondônia aparecem nesse encontro, por exemplo, as barragens, as hidrelétricas?

Leonardo Boff – Esses problemas aparecem sempre na forma de crítica. Em primeiro lugar, ninguém da população local foi consultado. São projetos que o capital nacional e internacional fazem, deslocando populações, passando por cima delas, que são tradicionais e estão há dezenas de gerações aí, como os indígenas, quilombolas e camponeses.

Todos eles são muito críticos e se sentem impotentes, porque a luta é muito desigual. Mas nós não vamos desistir, porque nossa causa é verdadeira. Vamos impor limites a essas pessoas que representam o capital. O povo daqui também lamenta que o governo não dá muita atenção a eles, fazendo políticas sociais de saúde, de educação e integração. No entanto, a Bolsa Família é importante, é preciso ser dito.

IHU On-Line – Como o senhor vislumbra o futuro da humanidade sob o enfoque das CEBs?

Leonardo Boff – Pessoalmente, vejo que estamos em um momento de viragem. A humanidade tem que descobrir um outro caminho de produção, de consumo, com outros valores de convivência, porque, senão, vamos ao encontro do pior. As Comunidades de Base são um pequeno ensaio do que pode ser o futuro: relações de cooperação, mais diretas e democráticas, com um respeito maior à natureza.

Quando pescamos e muitos não têm peixe, a gente divide. Outros não; pegam e vendem, para poder ter lucro. Há um senso de alternativa que eles estão vivendo aqui. E esse pequeno é a fonte do que será o futuro da humanidade. Não porque nós queremos ou não queremos, mas porque essa é a alternativa. Ou fazemos isso ou vamos ao encontro de uma tragédia ecológica e humanitária.

IHU On-Line – Como combater a cultura de consumo? Em que medida podemos pôr em prática os três “Rs” da Carta da Terra (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) em uma sociedade atrelada à macroeconomia e à cultura do crescimento econômico?

Leonardo Boff – O sistema global entrou em colapso e essa é a nossa vantagem. Ele não consegue continuar mediante controles e modificações. Esse sistema não tem futuro. Temos que descobrir uma forma mais simples, de ser mais com menos, de começar já com cada pessoa. Eu não posso mudar o mundo, mas posso mudar meu corpo, posso fazer o que chamamos de revolução molecular.

A soma de energia que as pessoas vão fazendo por necessidade, e muitas pela opção de um consumo mais simples, de pobreza voluntária, de comedimento são ações que estão criando as bases para um novo tipo de civilização mais adequado aos limites da terra, e que vão garantir o futuro da humanidade e da natureza, além dos outros seres que também precisam da biosfera.

IHU On-Line – Qual o papel da Teologia da Libertação, hoje, em relação ao debate sobre a crise ambiental?

Leonardo Boff – A Teologia da Libertação, que sempre escutou os gritos dos oprimidos, tem que escutar agora o grito da terra, das águas, da natureza. Dentro da opção pelos pobres, é preciso incluir o grande pobre, que é a natureza, a terra.

Se nós não salvarmos esse planeta, que é a única casa comum que temos, nós definitivamente vamos pelo caminho já percorrido pelos dinossauros. A Teologia da Libertação deve ajudar a libertar a terra; uma terra crucificada, que tem que ser baixada da cruz, tem que ser ressuscitada. Isso pertence ao novo desafio da Teologia da Libertação, que precisa ser uma ecoteologia da libertação, integrando natureza e humanidade.

Fonte: ALC

 
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Publicado por em 31/08/2009 em POIMENIA

 

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