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Líderes ou dominadores?

29 jul
Liderança Wilson Costa dos Santos

A maneira despótica ou dominadora como muitos líderes se impõem as suas comunidades é lamentável. São verdadeiros senhores do rebanho. Mandam e desmandam. Fazem e desfazem. Tudo, a bel prazer. Chega a ser vergonhoso porque estão adotando uma atitude marcada pela influência do anti-Reino. E isto num terreno – a Igreja – onde deve haver uma manifestação densa dos princípios do Reino de Cristo.

UM MODELO QUE ESTÁ NA BÍBLIA, PODE NÃO SER BÍBLICO

E verdade que o modelo liderança dominadora é encontrado na Bíblia! Senão vejamos: “… mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, se eu for aí, far-lhe-ei lembrada as obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras maliciosas. E, não satisfeito com estas coisas, nem ele mesmo acolhe os irmãos, como impede os que querem recebê-los, e os expulsa da igreja”. Claro é, está na Bíblia, mas não podemos dizer que seja um modelo bíblico. Na verdade, João (III.9,10) dá a entender que o tal adepto deste modelo de liderança jamais viu a Deus (v. 11). E lamentável e de grande prejuízo para a Igreja de Cristo que, homens sem a visão de Deus sobre a maneira de liderar, exerçam liderança sobre o povo de Deus.

O MODELO LIDERANÇA-EXEMPLAR, NA CARTA DE PEDRO

O apóstolo Pedro é visto por muitos como um líder entre os demais do grupo apostólico. Sem entrar no mérito da questão se ele teve ou não a primazia sobre os demais, podemos concordar que ele teve um lugar importante de liderança na Igreja Primitiva, sobretudo entre as igrejas que se originaram de judeus. Convém, pois, dar uma boa refletida em sua exortação: “Postoreai o rebanho de Deus que há entre vós, … nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes tornando-vos modelos do rebanho”. (I Pe. 5.2,3).

A palavra traduzida por dominadores é um interessante verbo da mesma raiz do substantivo “kírios” (do grego, “senhor”, “dono”). O verbo empregado expressa a ação de “dominar sobre alguém”, “exercer controle completo”, “assenhorar-se de”. Pedro, pois, exorta: “Não, não sejais assim”.

Por quê? Essa maneira é desfavorável ao rebanho. (A preposição prefixada ao verbo no texto original indica isso.)

Ao modelo liderança-dominadora, o apóstolo antepõe o modelo liderança-exemplar. “Antes, tornando-vos modelo…” A palavra modelo é uma palavra muito interessante, do grego “tipos”. Dessa palavra se origina a nossa em português, tipo. Tipo de máquina de escrever, por exemplo. Aquela letrinha de metal que serve para imprimir outras no papel. Essa é a idéia de modelo. Ê alguma coisa que serve para copiar-se outra semelhante. Ou, molde, através do qual se corta o produto final.

Isso tudo encaixa-se muito bem com a figura do pastor de ovelhas. Você já viu um pastor de ovelhas conduzindo um rebanho? Quando ele o conduz, onde se encontra? Exatamente! Caminhando à frente do rebanho. Ele não está atrás tentando empurrá-las ou espancando-as com seu cajado para que elas sigam na direção que ele deseja. Ele vai à frente. As ovelhas só irão aonde ele já foi primeiro. As ovelhas de Cristo necessitam de ver em seus pastores modelos de discipulado a Cristo, para que percebam concretamente como vir a ser discípulos de Cristo.

OS PREJUÍZOS DO MODELO LIDERANÇA-DOMINADORA

Já foi mencionado que o modelo liderança-dominadora é desfavorável ao rebanho. Convém verificar mais atentamente os prejuízos de tal modelo.

1. Não Proporciona Modelo Cristão ao Povo. A liderança-dominadora, que leva o líder a exercer um domínio tirânico sobre “aqueles que lhe foram confiados”, não corresponde à doutrina cristã. Jesus classificou como meramente terrena essa maneira de fazer uso do poder, quando dirigiu-se aos discípulos dizendo: “Sabeis que os que são considerados governadores dos povos, têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade”. E, em face da disputa pela primazia que já se travava entre os doze, arrematou: “Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mc. 10.42,43).

2. Não proporciona o Compartilhar da Liderança. Os líderes que adotam o modelo liderança dominadora não se dispõem a compartilhar a liderança com outras pessoas. Por julgarem-se “senhores” do povo não suportam a idéia de que outros venham a dominar também. (Já que este é o seu padrão de liderança, é a maneira como interpreta o daqueles que se propõem a ajudá-lo.)

3. Desvia o Líder de seus Melhores Alvos. Disputa egoística pelo poder, que começa a ser travada pelo líder que adota o modelo liderança-dominadora, desvia-o daqueles que deveriam ser seus verdadeiros alvos em liderança. Desvia seu coração, sua percepção, suas energias, de agir em benefício de seus liderados, para agir contra seus supostos “competidores”.

4. Impede o Florescimento de Novos Líderes e Novos Ministérios na Igreja. Modelo liderança-dominadora tira do povo a oportunidade da multiplicação de líderes na Igreja. Novos líderes representariam novos ministérios e a prestação de diferentes serviços finais à Igreja. Líderes dominadores precisam lembrar da riqueza que há no ensino bíblico sobre os dons espirituais (e. g. Rom. 12.3-8; I Cor. 12.1-11; Ef. 4.7-14). Essas habilitações especiais (dons) concedidas por Deus aos diferentes membros do seu Corpo, desembocarão em serviços (ministérios) diferentes. Como resultado, teremos a oferta à comunidade e a realização pela comunidade de diferentes obras finais. (Estes três aspectos quanto aos dons encontram-se em I Cor. 12. 4, 5 e 6.)

Assim, pois, é natural que um homem ou uma mulher com o dom de evangelista tente mobilizar outros membros do corpo, a fim de realizarem uma obra de evangelização. Ou, que uma ou duas pessoas, com o dom de misericórdia e/ou serviço liderem uma obra de assistência a pessoas necessitadas. Ou, que um outro homem ou outra mulher (além do pastor), que possua o dom do ensino, inicie algo assim como um grupo de “estudo e aprofundamento bíblico”. Estará prestando um serviço de ensino que resultará concretamente numa obra de maior conhecimento e maturidade daqueles membros da comunidade. E por aí afora, poderíamos enumerar vários e vários ministérios que podem surgir sob a liderança de tantas pessoas da Igreja, sob o impulso da habilitação especial que Deus lhes concedeu, com o propósito de servir e concretizar outras obras na edificação do Corpo. Talvez não seja preciso dizer que líderes que asumem o modelo da dominação, funcionam como verdadeiros tampões. Impedem assim o maravilhoso desabrochar dos dons, ministérios e obras que Deus potencialmente tem dado à Igreja.

Podemos pensar também que este “efeito tampão” pode ocasionar pelo menos três coisas. A comunidade poderá viver sempre à míngua pela falta de mais serviços e oportunidades de servir. A “panela” pode explodir um dia e causar um grande estrago. Ou, o “tampão”, com o aumento da pressão, poderá ser lançado com toda força, para muito longe.

5. Leva o Líder a Assumir uma Carga que não é só Dele. Líderes que adotam o modelo liderança-dominadora atraem para si um peso que deveria ser dividido com outros membros do corpo. Um homem só não tem todos os dons. Um homem só também não prestará todos os serviços à igreja e não conseguirá liderar tantos outros serviços que a igreja deve prestar ao mundo. Um único homem não será instrumento suficiente,pois, para que surja todas as obras finais que a comunidade poderia alcançar.

6. Rouba do Povo a Sabedoria. Líderes que se utilizam do modelo liderança-dominadora roubam do povo a sabedoria para a caminhada da fé. Há dois provérbios bíblico que põem o dedo na ferida.

O primeiro deles diz assim: “Não havendo sábia direção cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança” (Pv. 11.14). Não podemos contar todas as comunidades evangélicas que já se desentenderam, desintegraram-se e caíram, porque um único homem decidiu de modo errado. Sejam decisões administrativas, quanto a programas, disciplinares ou com relação a tantas outras áreas da vida da igreja, o pastor precisa contar com a ajuda da “multidão dos conselheiros”.

O outro Provérbio diz assim: “Com medidas de prudência farás a guerra, na multidão de conselheiros está a vitória” (24.6). A Igreja, como comunidade do Reino encontra-se em constante guerra com as forças aliadas ao anti-Reino. Jesus disse: “Sede prudentes como as pombas”. Que decisão revelará prudência e poerá conduzir aquela determinada comunidade com seu problema específico à vitória? “Na multidão dos conselheiros está a vitória!” A decidão e atitude prudentes surgirão do consenso de várias cabeças.

7. Tira do Povo a Pluralidade de Líderes-Discipuladores. Parece-nos que novos discípulos de Jesus precisam de modelos-discipuladores. Os líderes, no Novo Testamento, são chamados a apresentarem-se como modelos (e.g. I Tm. 3.1-7; 4.12; IPe. 5.3).

Em I Cor. 11.1 (seria melhor 10.34), Paulo escreve: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. Talvez tenhamos aí ura chamado não propriamente à imitação do apóstolo, mas que os Coríntios procurassem imitar o modo como Paulo tão comprometidamente procurava seguir a Cristo.

As pessoas que se iniciam na fé; que se encaminham para o crescimento e à maturidade em Cristo Jesus, necessitam de ter exemplos bem concretos de como imitar a Cristo. Cristo viveu há dois mil anos, na Palestina, mas como ele viveria hoje? Elas precisam ver modelos de vida no trabalho, na família, nos negócios, no serviço cristão, na adoração pessoal a Deus. Obviamente, para tantas pessoas que há na Igreja, temos necessidade de uma pluralidade de modelos-discipuladores. Se a igreja contar com maior número de modelos-discipuladores, na pessoa de vários líderes que estão preocupados com o crescimento e necessidades do rebanho e efetivamente trabalham para isso, haverá uma possibilidade de multiplicar pelo número de modelos as “reproduções” finais. A quantidade de discípulos será proporcional ao número de discipuladores.

Além do fator numérico acresce o fator qualitativo. Um único líder não será modelo em todas as áreas da vida. A obra de Cristo não se tem completado em qualquer de nós. Os novos discípulos de Cristo, na comunidade, poderão desenvolver-se mais e melhor na medida em que puderem olhar para vários modelos e imitar aquilo que admiram de Cristo em cada um.

A igreja evangélica no Brasil necessita urgentemente de mais e mais líderes que se apresentem como modelo cristão ao povo e disponham-se a compartilhar o serviço da liderança. Deste modo líderes e comunidades sofrerão menos, o que poderá determinar dias mais saudáveis e produtivos para a comunidade evangélica brasileira. Eis um desafio que se nos apresenta.!

FONTE: http://www.lideranca.org/cgi-bin/index.cgi?action=viewnews&id=7148

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Publicado por em 29/07/2008 em POIMENIA

 

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