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Práticas pastorais do apóstolo Pedro e os desafios ministeriais contemporâneos

05 nov

Pr. Francisco Araújo Barretos Neto
Arapongas, PR

Os homens de Deus do passado deram sua contribuição através de experiências, testemunhos, esquemas de ação,   elaborações teológicas e tipos de estruturas organizacionais da fé. No presente, o pastor, além de aproveitar todas essas práticas, precisa refletir sobre como contextualizar cada uma.

As atividades do apóstolo Pedro, narradas no livro de Atos, do capítulo 01 ao 10, servem de bússola para os pastores e cristãos que buscam uma compreensão bíblica do ministério e práticas pastorais. Embora, os outros apóstolos e livros do Novo Testamento tenham muitos a ensinar, Pedro pode servir como modelo por ter sido um dos primeiros pastores da Igreja do Senhor Jesus. Assim, a partir de suas ações, no período da formação da igreja cristã, podemos reavaliar o atual posicionamento da Teologia e Prática Pastoral.

A prática da oração

Em Atos 1: 13-14, os discípulos e, naturalmente Pedro, estavam orando. Aguardavam o cumprimento da promessa do derramamento do Espírito Santo para prosseguir a caminhada histórica do cristianismo. A experiência da oração constitui-se no elemento central da vida pastoral petrina. Foi o segredo da prática ministerial da igreja nascente. A oração estabelece equilíbrios: em nossa vida interior, entre nós e o próximo e entre nós e Deus. E, ainda hoje, nenhum projeto terá sucesso sem essa base de sustentação espiritual.

Esperavam o Espírito Santo porque é Ele quem capacita e guia a Igreja. É na medida em que o pastor ora que recebe poder. E, para tanto, é necessário permanecer em Cristo e isento de qualquer forma de pecado. Por isso, deve habituar-se a ter sua hora devocional diária, pois a oração é o meio pelo qual Deus é chamado a fazer parte de nossa vida. Por ela é possível abrir-se ao Senhor, e Ele, em sua liberdade e soberania, entra e assume o controle da situação, fato que não ocorre na vida daqueles que nada lhe pedem.

Há sentimentos que afetam essa riqueza que a relação com Deus nos proporciona tais como: o medo, insegurança, prepotência, vaidade e outros. Não podemos pensar que orar é só fazer pedidos a Deus. É mais do que isso, é falar com o Pai e compartilhar nossos pensamentos, sentimentos, dúvidas, problemas, queixas, confissão de pecados, adoração e agradecimentos por suas bênçãos e provisões.

O jejum foi uma estratégia poderosa na igreja nascente. Jejuar é abster-se de alimento por um período de tempo por causa de propósitos espirituais. É não comer porque sua fome espiritual é profunda ou sua batalha espiritual tão exigente que abandona temporariamente uma necessidade do corpo para dedicar-se à oração e meditação.

A prática da escolha de liderança

Pedro foi o líder naturalmente aceito pelo grupo apostólico e, em Atos 1: 15-26, compreende que há necessidade de substituir Judas. Por isso, busca no Antigo Testamento a justificativa, Sl 69 e 109. Essa pessoa deveria ter sido discípulo de Jesus desde o tempo do batismo de João até Sua ascensão; estar familiarizado com todo o ministério e obra de Jesus; e precisaria ser uma testemunha da ressurreição do Mestre.

Do mesmo modo hoje, um pastor atento reconhece que Deus convoca todos para o serviço cristão, mas, ao nomear pessoas, procura ver requisitos que as qualifiquem. Ninguém é superior ao outro. Todo ministério é um meio para servir ao Senhor e ao seu povo. O Espírito Santo orienta que a obra deve ser repartida entre todos. O pastor deve confiar nas pessoas, embora haja a necessidade de uma preparação mínima através de cursos para treinamento de líderes locais. Cada um precisa saber não só o que vai fazer, mas como vai fazer.

O pastor deve reproduzir-se e multiplicar-se. Se quiser se desincumbir completamente de sua tarefa, há de devotar tempo para treinar pessoas que venham a estar em condições de trabalhar. A maior necessidade da igreja, para que cumpra com suas obrigações para com a presente geração, é uma liderança espiritual, sacrificial, capaz e plena de autoridade vinda do alto.

A prática da pregação

Na pregação, a prática do apóstolo pode ser vista em Atos 2: 14-40, no dia do pentecostes; em Atos 3: 11-26, na porta do templo, chamada Formosa; em Atos 10: 34-43, na casa de Cornélio. As pregações de Pedro sempre deram um significado cristão e salvífico aos fenômenos do Espírito.

Mas, no dia de pentecostes, Pedro enfocou a pessoa de Cristo mostrando que sua divindade foi reconhecida pelos seus milagres; foi morto por mãos iníquas, mas, de acordo com o propósito de Deus, ressurgiu dos mortos, como previram os profetas e testemunharam os apóstolos; dá o perdão e o Espírito a todos que se arrependem, crêem e são batizados; e os acrescenta à sua nova comunidade. Isso prova que o pregador precisa conhecer bem o que está falando para convencer quem está ouvindo.

A história das origens do cristianismo e de sua expansão, como é reconstruída por Lucas, é a história da prática da pregação cristã. O movimento cristão surge, se robustece e se dilata mediante a proposição da mensagem e a sua acolhida por parte de grupos sempre mais vastos de pessoas.

Por isso, o desafio pastoral contemporâneo é de sermos fiéis à Palavra e de a apresentarmos de forma que alcance as pessoas de nossos dias. É necessário que sejam estabelecidos pelo menos dois propósitos: a evangelização dos perdidos e a edificação dos membros, porque a humanidade está dividida em dois grupos: os salvos e os não salvos.

Existe a necessidade de se repensar o conceito de pregação. Infelizmente, a forma tornou-se mais importante do que o conteúdo, ou seja, a oratória e a eloqüência tornaram-se valiosas por si mesmas; e a pregação virou uma espécie de entretenimento. Mas o pastor que fala com unção precisa ter sempre em mente que a pregação é o testemunho daquilo que Deus revelou a respeito de si, do Filho que oferece a salvação eterna e do Espírito Santo que convence e ilumina.

A prática da ação social

Em Atos 3: 1-10, através de Pedro e João, acontece a cura de um coxo; em Atos 5: 15, o apóstolo faz muitos milagres; e, em Atos 9: 32-43, acontece a cura de Enéias e a ressurreição de Dorcas. Ele conseguiu agir da mesma forma que seu Mestre e, com isso, ajudar os enfermos e necessitados.

O interesse principal nos episódios miraculosos era o de suscitar nas pessoas a decisão de aceitar a salvação em Jesus. Por isso, compete ao pastor ou ao que ministra a enfermos e aflitos trazer conforto e consolo, reavivar sua esperança e fortalecer sua fé. Apesar da diversificação de doenças, a carência espiritual das pessoas é sempre a mesma. O pastor deve levar a paz, segurança e fé em Deus e a confiança no sacrifício de Cristo. É na hora da crise que a pessoa se torna ciente da necessidade de Deus e de pessoas que se interessem por ela.

Uma doença pode precipitar uma crise espiritual. E é com o pastor que o membro falará mais claramente a respeito de suas preocupações e necessidades físicas, emocionais ou espirituais. O cuidado pastoral consiste em ajudar uma pessoa a estabelecer ou manter um relacionamento com Deus. Ouvir, ter empatia, humildade e entrega total são elementos-chave para ajudar na solução terapêutica do problema.

Estas são habilidades adquiridas pela fé, educação e prática pastoral. Tempos difíceis exigem ação heróica. Os pastores são indispensáveis tanto para a sociedade como para a igreja e, em tempo de estrangulamento moral e de instituições socialmente confusas, devem tirar o melhor proveito das oportunidades singulares no lugar em que Deus o tem plantado.

A prática do testemunho

Alguns textos como Atos 4: 1-23; 5: 17-18; 5: 26-32; 5: 41-42 mostram que, nas mais diversas situações, Pedro fazia questão de se identificar como cristão. As ondas de perseguição foram iniciadas pelos saduceus. Eles eram a classe governante, os aristocratas ricos e viram os apóstolos como agitadores e hereges, perturbadores da paz e inimigos da verdade, pregadores não profissionais com uma mensagem não autorizada. Mas Pedro não se importava com isso, pois, pregando à multidão no templo ou respondendo às acusações no tribunal, sua preocupação não era a sua própria defesa, mas a honra e a glória do Senhor.

Diante das proibições, os apóstolos reagiam e desafiavam as pessoas a julgar se seria justo obedecer aos homens ou a Deus. Assim, sempre pediam mais intrepidez para continuar pregando. Quando sofriam castigos, adoravam a Deus pela honra de sofrer por Cristo. Por causa disso, o mundo ia tomando conhecimento oficial da existência da Igreja de Jesus Cristo.

Os homens do passado deram sua contribuição através de experiências, testemunhos, esquemas de ação, elaborações teológicas e tipos de estruturas organizacionais da fé. O pastor precisa refletir sobre isso e contextualizar, verificar se são úteis ou não para o presente. Não se pode pretender que o Espírito só atue de acordo com as interpretações que os homens, no passado, deram à sua ação. É necessário que o pastor procure discernir hoje os sinais de sua presença na história dos homens e interprete sua vontade para a comunidade no aqui e agora.

Pedro nos ensina que o pastor precisa ser um cristão autêntico, ou seja, alguém que manifeste em seu viver diário as obras resultantes de sua fé. Isso o levará a assumir uma posição segura a favor da verdade, da retidão e a professar de modo firme e consistente aquilo que crê. Mas há sempre um preço a pagar. Talvez tenha de se libertar de empecilhos que estejam atrapalhando e tentando impedir sua caminhada, reavaliando seu ministério e, com base na Palavra e seus exemplos, prosseguir com amor e firmeza, cumprindo o propósito de seu chamado divino.

A prática da restauração

Há dois textos onde Pedro exerce energicamente a disciplina. Em Atos 5: 1-11, não denunciou a falta de honestidade pelo fato de Ananias e Safira trazerem apenas uma parte do dinheiro da venda, mas a falta de integridade quando fingiram que doaram todo o dinheiro. Viu por trás dessa hipocrisia a atividade sutil de Satanás e os acusou de apropriação indébita, falsidade, roubo e mentira.

Em Atos 8: 18-24, Pedro repreende Simão, o mágico, de maneira direta e pública por ser simoníaco. Simonia é a tentativa de transformar o espiritual em comércio, de negociar as coisas de Deus e, especialmente, de comprar o ministério eclesiástico. E, nesse caso, o que se ressalta é o desejo pecaminoso de possuir poder espiritual por razões e métodos errados.

Onde há pessoas trabalhando ou convivendo, o conflito é inevitável. A ajuda de Deus, através da oração, da leitura da Bíblia, de conversas com pessoas mais experientes, de leitura de livros que ajudem a discutir as dificuldades de relacionamentos, permitirá ao pastor maior destreza e habilidades nas soluções dos conflitos. O importante é não desanimar.

Por isso, o primeiro passo nos conflitos interpessoais é identificar sua causa. Porque, quando qualquer uma das necessidades: físicas, de segurança, de associação, de auto-estima, de realização ou autonomia é prejudicada por outra pessoa, o resultado é um conflito. É preciso que haja o desejo e o propósito de realizar verdadeira restauração nas pessoas e nos relacionamentos.

O Espírito Santo é capaz de solucionar o problema de rebeldia natural do homem e aumentar a sua fé, a ponto de realmente acreditar que a melhor maneira de viver é em submissão à Sua vontade e à Palavra de Deus.

A prática missionária

Em Atos 8: 14-25, os discípulos, voltando para Jerusalém, visitaram muitas aldeias dos samaritanos no intuito de pregar o reino de Deus. O objetivo dos atos de Pedro sempre era o de levar à fé as pessoas da localidade. Por isso viajava entre as igrejas fora de Jerusalém, a fim de lhes dar ensinamentos apostólicos e levá-los e receber o Espírito Santo.

Já em Atos 10: 9-48, o reino dos céus é aberto aos gentios através da evangelização e do batismo de Cornélio. Deus, através de uma visão, harmonizou com perfeição a sua obra entre Cornélio e Pedro, porque o Senhor não faz acepção de pessoa. Todos devem ser evangelizados, discipulados e treinados para produzirem mais para o reino de Deus.

O apóstolo Pedro enfrentou as mesmas dificuldades que os pastores hoje enfrentam. Tinha a mesma fé, a mesma boa-nova, a mesma força do Espírito que os pastores, hoje, têm diante do mundo. Sua mensagem encontrou zombaria, oposição e, às vezes, acolhida. Mas ele deixou esta lição para os pastores: se assumirem o trabalho de traçar a história da missão, poderão contemplar, através de pequenos fatos, dificuldades cotidianas, decepções, ao lado da ação do Espírito e da progressão da Palavra.

A obra mais importante da Igreja de Jesus Cristo é a evangelização dos povos, línguas e nações. Porque, quando Deus amou, amou o mundo, deu o seu Filho pelo mundo e Jesus morreu pelo mundo. A visão divina é uma visão mundial. Essa é a visão que Ele quer que os pastores tenham.

Uma igreja pode ser influenciada por pregação missionária, através de cursos que ajudem a mobilização e implementação do ministério de missões na igreja local. Pode dispor de assessoria missionária para compartilhar experiências, informações e implementação de cursos.

Através desses meios, o pastor levará a igreja a crescer depois de conhecer, por exemplo, as dimensões da comunicação transcultural, as formas dos povos verem o mundo, como as pessoas pensam, as barreiras lingüísticas, os diferentes padrões de comportamento, os estilos de vida das etnias, as estruturas sociais, as maneiras interagir, a influência da mídia, as metodologias para transmitir as mensagens missionárias e as fontes de motivação que impulsionam nas tomadas de decisão.

Conclusão

Após a morte de Jesus, Pedro presidiu a comunidade de Jerusalém nos primeiros anos, mas no decorrer do tempo deixou essa função para atuar na área missionária. Pedro nos ensina muito sobre teologia e prática pastoral e nos desafia a seguir seu exemplo no dia-a-dia da vida ministerial. O que precisamos é utilizar os princípios da Igreja Primitiva e os atualizarmos para nossa comunidade. O modelo de igreja de 30 anos atrás dificilmente sobrevive em nossos dias.

Publicado no Jornal Aleluia de junho de 2002

FONTE:

http://www.iprb.org.br/artigos/textos/art01_50/art06.htm

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1 comentário

Publicado por em 05/11/2008 em POIMENIA

 

Uma resposta para “Práticas pastorais do apóstolo Pedro e os desafios ministeriais contemporâneos

  1. Pr. José Nilton Barbosa

    02/07/2010 at 02:18

    Graça e Paz!
    poderosa mensagem sobre praticas pastorais do aostolo Pedro, e os desafios do ministeio contemporâneo. Desejo publicar em meu blog, e para isso, peo-lhe a permissão. aguardo reposta, e que Deus continue te abençoando!

     
 
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